quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Fuga


A água nos potes esquenta ao sol. O corredor da casa ainda sujo, pedaços de objetos roídos, pêlos. O cheiro no ar. O portão entreaberto. Eles se foram.

A fêmea média, amarela, muito medrosa. Esperta, escala coisas quatro vezes maiores que ela. Fica em uma excitação louca ao me ver . Não gosta de colo, carinho só na barriga.
O macho um pouco maior, mas ainda de porte médio, brincalhão, safado, estabanado. Gosta que o peguem no colo. É todo preto, até os olhos bem escuros e brilhantes.

Eles se foram pelo portão entreaberto, no mais absoluto silêncio de uma fuga bem planejada. Uma fuga que se deseja, não deixa pistas.

Anúncios de procura-se já foram espalhados pelo bairro. Ele é o Guno, ela é a Bloga. Eu sei, nomes horríveis para cachorros, mas tenho motivos engraçados, outra história.

Fico imaginando, no vazio do não saber, que ele saiu correndo depois de atravessar as grades que o separavam do mundo, todas as ruas a percorrer, cachorros a cheirar, uma imensidão inteira a ser mijada, a ser impregnada dele mesmo. Ela, eu penso que foi devagar, cautelosa, dando atenção a cada poste, parede, a matinhos revoltosos que nascem no asfalto rachado.

 Depois, a fome deve ter feito eles lembrarem de casa, dos potes cheios da ração marrom, sem graça, mas nutritiva, dos biscoitos de agrado. Mas pensaram em voltar? O que seria um passeio despretensioso mudou a vida; se pensaram, ainda não acharam o caminho. Talvez tenham ido por aí se enchendo de bondades dadas por estranhos que alimentam animaizinhos eremitas; nem lembraram de casa, porque isso é de humanos.

Eu que não me lembrei de passar a chave no portão. Queria mantê-los trancados, protegidos dos carros, da chuva, do frio, da fome, das pessoas que maltratam animais. Mas eles se foram. E sem culpa e nem rancor, eu só queria que voltassem.