quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Não-tal

Resolvi quebrar o silêncio. Não foi tarefa fácil, ficar em silêncio. Quando palavras são tudo o que você tem, a pior coisa é tentar mantê-las em cativeiro. Elas se tornam muito agressivas. Basta lembrar ou então imaginar o estado da jaula dos velociraptors em Jurassic Park. Eles nunca atacavam o mesmo lugar mais de uma vez e estavam sempre buscando falhas na cerca. São as palavras engaioladas. 

Agora imagine-se tentando conter palavras que querem, a todo custo, sair. Bebês escalam o berço quando você não está olhando. Cães roem o portão. Presidiários cavam um buraco (pelo menos nos filmes). Palavras ficam batendo nas paredes do cérebro até arrumarem uma forma de escapar, seja pela boca ou pelas mãos. Músicos, pintores, poetas, cada um encontra a sua forma de expressão para não enlouquecer. E eu tentei ficar calado por tempo demais.

Agora que parei pra pensar na expressão "quebrar o silêncio". Ou então "romper". Não, não poderia ser de uma forma serena. Tem que ser de forma a explodir uma barreira e fazer com que todas as pessoas no ambiente se voltem para sua direção, com olhares acusadores de "quem foi que fez isso?", como se fosse o crime maior da humanidade. Por isso que os loucos chamam tanta atenção. Se expor é sinal de diferença. 

O caso e que não vim escrever sobre o Natal. Nem é uma forma de criticar a data - não, eu percebo o quanto gosto e quero estar mais próximo das pessoas de quem gosto. O quanto quero vê-las bem, em qualquer época do ano. Aproveito esta data para encerrar um capítulo que durou tempo demais. Eu penso muito em formas de comunicação - quais são os mecanismos que usamos para estabelecer contato uns com os outros. Conversando sobre isso, ouvi dizer que (e aqui cabe um "há quem diga que"), quando encontramos alguém nos sonhos, é a própria pessoa que viajou e entrou em contato conosco. Já achava balela quando era novo, ainda mais depois de velho. Quero dizer, ainda que fosse uma pessoa que já tivesse morrido, quem sabe? Tive sonhos com pessoas importantes e que já morreram - até que faria algum sentido. Mas e as que estão vivas? Invadem nossos sonhos e têm conversas conosco em que dizem exatamente o que tanto queríamos ouvir? Ah, é conveniente demais. Especialmente porque, se isso fosse realmente verdade, o dia a dia das pessoas envolvidas no sonho deveria mudar. Elas se encontrariam eventualmente e, numa simples troca de olhares, demonstrariam que agora está tudo resolvido. Que nada mais precisava ser dito. Poderiam seguir em frente, deixando aquele assunto pra trás. Os e-mails corporativos seriam muito mais interessantes. "Conforme conversa que tivemos no sonho de ontem à noite, envio os novos prospectos". "Aguardo orçamento combinado durante o pesadelo com etês devoradores de cérebros". "Sasha Grey passou no meu sonho e mandou dizer que vai convidar aquela amiga que você quer conhecer".

Esses sonhos com conversas reconfortantes são um belo exercício de narcisismo, porque todas as pessoas ali somos nós. É o nosso cérebro em ação, por isso que ouvimos exatamente as palavras que queremos ouvir. Isso faz muito mais sentido pra mim. E fez ainda mais quando tive um desses sonhos em que eu não falava apenas coisas bonitinhas, mas falava da realidade mais seca e duramente. Sem entrar em tantos detalhes (mais), fiquei contente ao ver que meu cérebro concordava comigo e pude, afinal, ter paz com minha decisão.

Bom voltar a sonhar.