quinta-feira, 12 de março de 2015

Os fantasmas sociais


Assistia um programa  de televisão quando eles mostraram uma pegadinha. Em uma modelo fizeram o penteado e maquiagem de Samanta Morgan, um personagem conhecido pelo filme  ''O chamado''.


Colocaram a modelo parada na saída de um metrô movimentado aqui de São Paulo, que tem um túnel meio sinistro.


Não vi o filme, mas conheço o personagem de tanto que aparece por aí.

Talvez em qualquer outro país algumas pessoas dariam pulos de susto se ao sair do metrô à noite se topam com essa figura assustadora. Mas aqui em São Paulo as pessoas não se assustaram tanto e cheguei à conclusão que isso se deve ao fator social.

Se eu saio do metrô à noite e vejo uma moça estranha parada na porta, meu primeiro pensamento é que deve ser uma usuária de crack, talvez bêbada, perdida na cidade maluca, mas não penso que é o fantasma de um filme americano.

E a pegadinha ficou pouco engraçada por isso, as pessoas reagiam desviando da moça, não a viam como um fantasma maldito, a maioria ainda falava com ela, imagina, falar com fantasma!


É a maneira como se vive em uma cidade caótica, se vemos alguma coisa estranha ou alguém, pensamos que são bandidos ou armadilha, quantas pensam que podem ser fantasmas? Na paisagem urbana sobra o cinza, cachorros sem dono nas ruas, mendigos, moradores de rua, prostitutas, pessoas correndo de um lado a outro, se por acaso se encontra ali algum fantasma os olhos de quem vive aqui  já não consegue enxergar.


Já a Suécia começou a ser assombrada por um fantasma social, nos últimos tempos os suecos estão meio estressados com uma nova tinta que apareceu no panorama deles, os mendigos. Na verdade são imigrantes, vindos dos países do Leste Europeu, mas ao chegar na Suécia não dominam o idioma, os abrigos estão lotados e não conseguem se integrar a sociedade, terminam morando nas ruas e pedindo dinheiro.


A situação ficou tão critica que outro país, Noruega, apertou e criou uma lei que proíbe a mendicância. Os suecos ainda não adotaram essa lei mas já caminham para isso, estão elegendo políticos com projetos anti-imigração e  querem cortar todos os benefícios. Reclamam discretamente do que chamam de  ''praga de verão'' a cidade cheia de moradores de rua durante a única época que se pode sair, já que a Suécia tem um dos invernos mais duros do mundo.

Hoje dizem que cada supermercado na Suécia tem de dois a três pedintes na porta, coisa comum no Brasil, mas por lá é um fator novo.


Os suecos também reclamam que ficam com medo de caminhar à noite, pelo alto número de moradores de rua. E pode parecer preconceito, mas entendo eles, moro perto de um viaduto e lá estão muitos moradores, conheço a maioria, porque existe muita rotatividade, não tenho problema nenhum em passar por lá, mas em alguns momentos sou obrigada a atravessar a rua ou pegar outro caminho porque os vejo bebendo e usando crack e isso é perigoso demais, as pessoas começam a alucinar e vão pra cima de qualquer um.


Mas eu nasci em São Paulo, vejo isso desde criança, imagina um sueco que nunca viu ninguém dormindo na rua ou nos carros.


O lado humano da questão sempre me perturba um pouco, os suecos não parecem incomodados com a desgraça humana, finalmente ninguém é mendigo porque quer, mas estão irritados com a ''nova paisagem'', ou seja ''essas pessoas sujam seu lindo panorama''.


O problema dos moradores de rua é a indiferença de todos em relação a isso e a ausência do Estado. Daqui a pouco os suecos vão estar como os paulistas, se acostumam e não percebem mais se tem ou não morador, eles se integram a paisagem como se fossem um objeto.


Moradores de rua e mendigos não são uma  ''coisa'' que suja a paisagem, mas a prova concreta da falência de todos os sistemas políticos do mundo, inclusive do sueco. O problema não são os imigrantes do Leste Europeu, mas o fato de vivermos em um planeta desigual e injusto, não é só no Brasil que tudo isso acontece. O mundo passa por uma crise humanitária e são milhões de pessoas fugindo de seus países empurradas pela fome e guerras. E países ricos se fazem se justos e corretos, mas escondem seu passado, suas ligações clandestinas com os países pobres e a rota da exploração. Não existe um só país rico no mundo que não tenha feito sua fortuna a base de trabalho escravo e explorando os recursos naturais dos países pobres, a Suécia esconde e nega, mas os primeiros comerciantes de escravos na África foram os suecos. E agora que os países pobres estão no seu limite e as pessoas fugindo, os países ricos fecham as fronteiras e dizem ''aqui não''. Tivessem pensado nisso antes de roubar os outros! Muito fácil ficar rico com ouro alheio! 


Se for colocar a questão carmática no meio, se pode dizer que os imigrantes estão apenas retornando para pegar o que um dia foi roubado deles.

O mundo se recusa a enfrentar seus ''fantasmas'' sociais e fingindo que não existem. Talvez por isso essa fantasminha da Samanta Morgan não assuste ninguém. Quem conhece a ruas sabe que tem coisas mais assustadoras do que mil Samantas.