quarta-feira, 17 de junho de 2009

Soluçado

Procura-se um gato que eu sempre jurei ter resquícios de siamês, embora na testa dele e na sua inata capacidade de revirar lixos esteja o decreto: sou vira-lata. Procura-se um gato que, não se sabe como, desapareceu do meu apartamento, do prédio e me deixou com cara de boba, carregando o saco de areia caríssimo (e fechado) que comprei para ele.
Cheguei em casa e pela primeira vez em 16 meses ele não me recebeu. Sumiu, escafedeu-se. Foi incapaz de estar em todos os esconderijos prováveis e até nos impossíveis. A ficha de que meu gato havia sumido, mesmo, caiu aos poucos. Eu sustentei, até um certo momento, a ideia de que ele estava dormindo, hibernando sob minhas cobertas e eu não fui capaz de sacudi-las o suficiente para despertá-lo.
Ele volta, todos me dizem. Já faz mais de 24 horas que notei seu sumiço. E desde então, mesmo estando pouco em casa, senti ardidamente o abandono da minha bola de pelos branca e encardida. Ainda na manhã que o deixei em casa pela última vez ele parecia reclamar da minha saída e da solidão que ele (imagino eu) deveria sentir.
E agora, brinda-me com a sua ausência. Disseram-me que gatos quando estão doentes fogem dos donos, para que eles não os vejam morrendo. Acredito que só uma instintiva vontade muito grande de não me decepcionar o faria pular andares abaixo, rumo à boca cheia de dentes de três cachorros nada amigáveis. Coisa que o seu quê de gato de apartamento cagão nunca o permitiu sequer cogitar fazer.
Recuso-me a rever suas fotos e prefiro imaginar que ele está de férias em um hotel fazenda. De todos os seus sons dos quais eu reclamava, nesse minuto eu daria de um tudo para ouvir. Até ele derrubando as coisas na pia ou tentando escalar a geladeira. Agora, não há mais por que retirar os pães da mesa, não há ninguém que vai tentar comê-los. Não há por que deixar o buquê de flores não alto, não há felinos para devorar as pétalas. Nem é preciso ter pressa para desfazer as malas, não haverá uma surpresa branca e peluda dentro dela.
Nesse momento, no qual eu digito, ele estaria pegando no sono nas minhas pernas e, se as marteladas no teclado ou as gargalhadas fossem altas, ele acordaria e passaria as unhas sobre meu pijama, sobrando uns arranhões para as pernas sob o tecido. Hoje só me sobrou o meu pijama de gatinhos que minha mãe fez pensando no gato. O gato sumido.
Já listei mentalmente todas as hipóteses de onde posso encontrá-lo e em seguida refutei todas. Já cogitei procurar em todos os lugares fora daqui e cada vez tenho a certeza de que ele se foi para não mais voltar. Pode ser que tenha sido levado por alguém e, confesso, essa é a alternativa que mais me dói. É aí que tenho a certeza de que devo chorar, mas me recuso, porque oras, ele pode voltar.
Entendo, salvo as devidas proporções, quando dizem que é melhor saber que a criança está morta do que desaparecida. É difícil fazer as tarefas diárias imaginando que aquele ser pode estar machucado, com fome, com sede, esperando por você. É difícil não poder fazer nada por ele. É difícil perder um ser que você mal sabia como tê-lo. Mas, sobretudo, é difícil ter e perder, mesmo sendo um gato arisco e sem pedigree. E não é preciso ter tido um bichano roçando nas pernas para saber que a falta que faz dói, de um jeito que você sabe que vai passar, mas até lá... ah, até lá...

Da campanha: volta, Polaco, volta.