terça-feira, 12 de maio de 2015

Velhice precoce

Alguém me disse uma vez que eu era uma alma velha. Isso explicaria um certo cansaço que tenho quando olho as coisas que acontecem ao meu redor. 

Mas não explica mais nada. Porque se eu fosse uma alma velha, até acho que sou, deveria ter um sentimento maior pela humanidade, uma compaixão, uma tolerância. O meu olhar deveria ser como de quem vê crianças brincando, brigando, caindo e levantando. Mas não tenho esse olhar com o mundo. Pelo contrário, olhar me enche de tédio e angústia. Sempre tem alguém que diz – Você ainda tem tanta coisa para viver!

E respiro fundo. Não sou mal agradecida, a vida sempre se agradece, mas vou fazer o que se morro de tédio a maior parte do tempo? Até tento e se existe Deus, ele sabe como eu tento. Me concentro em coisas que gosto. Tento sempre entender o mecanismo do mundo, que faz essa vida para muitos tão excitante. Já me falaram que se eu fosse milionária não teria tanto tédio. Na verdade se fosse milionária estaria mais distante do que estou, porque colocaria todo meu dinheiro para trabalhar no resgate animal. Estaria ainda mais longe das pessoas, vivendo só com os animais. E eles às vezes me indicam o caminho. Quando o tédio me come viva, acontece alguma coisa, vaza petróleo em algum lugar do planeta e aparecem aquelas imagens tristes de animais cobertos pelo petróleo e morrendo lentamente. 

Penso nos milhões de animais sofrendo, agonizando, de novo pela ambição humana. E o tédio vai embora e sou invadida pela angústia, pela visão do mundo caindo na frente de todos nós. E talvez o tédio indique que minha alma é velha mesmo, mas é a angústia que avisa que minha alma ainda está viva.