quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sonhos de inverno

Uma casinha, um cão, um violão, um quintal... talvez plante umas coisas, uma árvore. É, uma árvore. Já viu como as árvores ficam lindas quando chove? Quantas vidas tem em uma árvore? Ah, um bom som, numa vizinhança tranquila, aquele cheiro de café feito na hora, doce que só, quente como o casaco que me aquece. Café puro pela tarde, acompanhado de uns biscoitos fritos. Saudades dos biscoitos da minha vó, a gente ia pro quintal, a casa ficava cheia, movimentada, era julho e o frio já batia na porta, eu ficava olhando pro forno, e lá no fundo um monte de lenha, lendas, escorpiões e alguns morcegos. Descia na horta, ficava ouvindo o silêncio sendo tomado pelo barulho do vento, uma briza inocente derrubando uma telha, e os cães latiam. Aqueles cacos no chão, se transformando em disco-voador na minha mão. Um sorriso, tinha laranja no pé. Eu que nunca gostei de laranja doce, pegava e levava pra casa. Sem contar pra minha vó da minha preferência pelo azedo, pois ela tinha esse negócio de querer me agradar, talvez por sempre estar lá quando ela estava só, ou talvez por ser vó mesmo. A tarde ia embora e já sentia aquele friozinho aumentando aos poucos, sempre olhando o céu. Isso eu quero, um lugar pra ver o céu, o sol se pôr, o sol nascer. Sempre tive uma certa inveja dos que acordam cedo todos os dias, só que é tão bom dormir até tarde, ou a tarde, o dia inteiro. E outro dia, um café, uma linda mulher, aquela que não dá vontade de sair de perto sabe? que você andou por tantos cantos enquanto ela estava desfilando sua beleza por ai, enquanto a vida ousava desviar nossos olhares para outros ares. O inverno tem esse poder de me fazer sentir vazio, frio e inconsciente do que quero. Um tempo que supõe dúvida, eu sempre fui verão, calmo e também cabeça quente. Disseram que esse é o perfil de aquários, não entendo de signos direito, mas já me vi ir do inferno ao paraíso tantas vezes que o purgatório tem sido meu habitat. Busco entender pessoas, comportamentos, natureza e o que encontro são só mais perguntas. Quero sim me aventurar, corro esse risco justamente pelo medo da morte, amanhã quero acordar de novo, ver aqueles olhinhos, ouvir sua voz, tomar seus braços e quanto ver aquele sol, nosso céu, te beijar. Saltar de pontes, subir os montes, seguir os monges, sentir-me anjo ao salvar pessoas. Nunca soube o que era Deus, mesmo sentindo algo diferente, já sai do corpo, já entrei em mentes sem tocar, e sei que ao final do dia, por toda minha vida, quero colocar a cabeça no travesseiro e mesmo queimando por não ter todas respostas, poder dizer que estou em paz. Pois fiz aquilo que estava ao meu alcance, subi, cai e percebi que existe glória aqui nas sombras, que a vida é um acidente e o maior risco é o de não viver. Por isso eu solto tudo que tem aqui dentro, sem medo do que virá. Apesar dos braços serem longos, as mãos só seguram o que a mente pede para segurar. Enquanto o frio insiste em dizer que nada é o suficiente, que sempre vai faltar algo para/ou alguém ali. Quando o seu próprio calor começa a te fazer companhia, buscando aliar as coisas no seu interior, percebe que é mais forte do que pensa. Morremos por buscar algo que não queremos ter ou ser, a fé no suor, escorrendo pelo rosto com promessas falsas de um futuro bom e tão incerto. O consumo nos faz tomar direções tão opostas ao que considero viver, ser alguém é mais difícil do que somente ter, o cobertor que aquece o corpo chega a queimar a carne, a água tem seu preço mesmo que ainda jorre livre por ai, manter-se em pé é muito mais do que um simples ato de levantar, é buscar o equilíbrio para não cair. Inverno é sempre frio... não me tombe mais, estou deitado numa ilha, num barco sem cais, à deriva, só quero viver meu sonho de estar em par e em paz.