domingo, 27 de dezembro de 2015

Fervedouro




Raimundo é rapaz forte, trabalha na lavoura desde quando se lembra de que é gente, e não se queixa da rotina. Todo dia precisa comer, então é razoável que todo dia precise trabalhar.

A lida começa antes de o sol nascer e naquela quinta-feira estava particularmente quente. O seu Januário até dispensou um pouco mais cedo, pois os trabalhadores demonstravam visível exaustão e ele temia ter desfalque no dia posterior. Raimundo era o único que não aparentava cansaço, respondeu positivamente com a cabeça e disse “sim, senhor” ao ouvir o anúncio. 

Antonio, Jorge, Tião e Cambimba saíram em direção ao bar, enquanto Raimundo recolhia seus pertences.

-Tu não vem, Raimundo?

-Vo não.

Raimundo tinha outros planos: aproveitaria o horário para visitar Marizete, a essa hora o seu Mané não deve estar em casa. Mesmo sabendo da cheia do rio, o rapaz não hesitou e achou que valeria o esforço para ganhar tempo, seu coração era todo saudades.

Parece que o rio estava ainda mais cheio do que comentara João da boca. Não importava, ele iria de qualquer jeito, era ótimo nadador, só teria mais esforço. Amarrou suas coisas num pano, o ajeitou e foi-se embora.

Já passava da metade do caminho, quando abruptamente sentiu uma força que o fez mergulhar. Por mais que tentasse tomar o controle, o fervedouro era implacável, indomável. Quanto mais tentava lutar pela sobrevivência se utilizando da força, mais Raimundo afundava e a vida lhe parecia dar adeus. Foi aí que conseguiu escutar o sussurro das águas e se deixou levar pelo movimento delas. Girou, girou, e a cada giro um novo segredo revelado, já não sentia falta de terra firme. No entanto, inesperadamente foi arremessado às margens do rio.

Raimundo ficou até o anoitecer deitado, olhando para o além. Sim, a vida muda num instante. Era chegada a hora de partir.