quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Privilégios, meritocracia e caridade

Por todo canto ouvimos discursos que nos levam a crer que tudo depende de nós, como se um ser humano fosse o centro do universo e as influências externas e todo o legado histórico durante anos e anos da vida na terra não impedisse o avanço de muitos ou beneficiasse o avanço de poucos. No atual cenário que vivemos na história é compreensível o discurso de alguns e fica até difícil esperar algo diferente das pessoas historicamente menos favorecidas, mas que fazem parte de uma parcela que recentemente conseguiu realizar algo. Pois se esses conseguiram algum avanço automaticamente acreditam que os outros também irão conseguir na base do esforço e dedicação despendidos por eles, o resto é coitadismo.

Fonte: http://desabafosocial.com.br/wp-content/uploads/2015/11/meritocracia1.jpg


Acredito que, “é muita ingenuidade achar que você só chega em um lugar por você mesmo, a vida é um conjunto infindável de acasos e pequenos detalhes que no futuro fazem toda a diferença. E na nossa sociedade esses detalhes tem a ver com sua cor, seu gênero, seu acesso a educação na infância, a cultura/princípios que você ganha dos seus pais e tantos outros privilégios.” 


Fico triste quando escuto caras negros que comeram o pão que o diabo amassou no passado e hoje amparam suas ideias somente em suas trajetórias de vida, para dizer que o restante do povo negro só não tem o que eles tem, por que não se esforçam como eles se esforçaram. Deixando toda luta do movimento para trás e olhando apenas pros seus próprios umbigos. 


O dinheiro parece criar uma legião de seguidores. E quem fica por cima vem puxando toda a boiada para o curral dizendo que há muito sal e capim para todos, que não existe exploração, mas a verdade é que os bois que chegam na frente bebem a água mais pura, e o restante fica com a sujeira e a lama. Criaram uma ideia de que pra ser é preciso ter. E hoje já não basta ter, tem que ter o que os mais ricos tem. Se não for caro não presta, se não for caro não vale a pena. 


Em todo canto estamos expostos a um infinito de coisas que não podemos comprar, mas que o marketing insiste que se tivermos aquilo teremos inúmeros benefícios como reconhecimento, atratividade e sucesso. Frases como: "Você tem que comprar um carro pra ter uma bela namorada", "Você precisa comprar uma casa pra poder casar", "Você precisa passar numa boa faculdade pra não morrer burro", "Você precisa ganhar muito bem pra vencer na vida" são ditas a todo momento por ai como verdades absolutas e pessoas dão suas vidas para conquistar essas coisas. E mesmo quando alcançam se sentem inferiores ao andar, por exemplo, pelas ruas de Alphaville e ver aquelas casas luxuosas e carrões na rua. Coisas que talvez nem 1% das pessoas que eu já conheci nessa vida pode ter. 


Recentemente o autor Alex Castro publicou no site do Pdh esse texto aqui que elucida bem a questão do privilégio de uma minoria e que ele mesmo acha que faz parte também. Mostrando a visão lúcida de quem faz parte dessa minoria branca e afortunada que ainda hoje acredita ser superior aos outros. Vale a pena a leitura.


Um comentário referente ao texto se tornou complementar para entender essa festa dos privilégios: “Nossa sociedade garante privilégios e as pessoas privilegiadas não precisam dizer "sim, eu aceito esses privilégios": basta deixar tudo como está. Esses privilégios não explicam sozinhos o sucesso de uma pessoa, mas uma pessoa que é branca terá mais facilidade em uma entrevista de emprego, por exemplo. Uma pessoa branca, como mostram os dados estatísticos, tem mais probabilidade de ser de uma família com melhores condições financeiras (e aí, qual é o mérito pessoal de nascer nessa família?), de ter melhores condições de estudo, melhores condições de competir no mercado de trabalho. Os homens recebem mais que as mulheres. Dados estatísticos. Se você quer questionar, não use sua experiência pessoal, porque ela é irrelevante. Estude estatística e vá discutir em termos estatísticos a metodologia utilizada pra esses dados e pesquisas. Se uma pessoa tem que fazer um esforço x para alcançar determinado status social sendo branca, por exemplo, sendo homem, por exemplo, e outra pessoa que não é branca ou não é homem precisa fazer um esforço 3x para alcançar a mesma coisa, isso se chama privilégio. Isso não anula seus esforços pessoais, nem sua história, nem suas conquistas, mas existe e afeta sua vida e a das outras pessoas, e afeta também o que você alcança com seu esforço x.” 


Olha, não é questão de reclamar de alguém que está na posição financeira superior. É questão de alguém nessa posição se conscientizar que a meritocracia existe sim para 1 a cada 1 milhão que acredita nela. E a partir disso tentar contribuir ou criar mecanismos para dar acesso às condições básicas de vida a esses 999 mil que restam. Ninguém está falando de dinheiro em si, mas mais oportunidades e condições para que eles pelo menos sobrevivam, já que a "vitória" é privilégio somente para os "fortes". É preciso olhar para o próximo com mais empatia. 


Em um país de maioria cristã, é contraditório não ver um ensinamento básico presente na bíblia sendo fortemente manifestado – a caridade. Se não me engano, em alguma parte da primeira carta de São Paulo aos Coríntios diz o seguinte: “Atualmente permanecem estas três coisas: Fé, esperança, e caridade. Mas a maior delas é a caridade.” E não é o que vejo sendo aplicado por ai. Lembro-me de uma missa que fui e o Padre disse que o sonho dele era ver cada um que vai à igreja levando algum alimento quando eles fazem campanha de arrecadação. Em muitos casos, nem metade das pessoas que vão à missa contribuem nessas campanhas de arrecadação de alimentos, de roupas e etc. Numa sociedade cada vez mais individualista e competitiva, o amor ao próximo tão disseminado por Jesus tem ficado de lado e dado espaço ao amor próprio. As frases religiosas, vem sendo muito utilizadas em tatuagens e como legenda de fotos, mas na prática elas se tornam tão superficiais como as pessoas que as utilizam fora do contexto na vida. 


A informação está ai para todos e mesmo assim há muitas pessoas sem nenhuma base de conhecimento a respeito do racismo, da homofobia, do machismo, do sexismo, das cotas ou da meritocracia que só falam de acordo com a suas realidades pessoais e esquecem que existe um mundo lá fora cheio de outras pessoas que vivem uma realidade totalmente diferente. É extremamente necessário se informar algum tanto para entender o contexto em que vivemos, e a partir disso entrar em um consenso sobre as questões para não sair por ai falando merda.