domingo, 21 de agosto de 2016

Soluções Práticas - Parte 21

Porém, antes de entrar na fenda, virou-se uma vez mais para ver a manifestação que passava. Estranhamente aquilo a afetou. Sentiu um nó na boca do estômago, uma dorzinha lá no fundo do coração. Sentiu uma saudade não sabia se de algo, ou de alguém. Jovens, homens, mulheres e crianças com suas faixas, cartazes... Seu povo veio à mente, bem como o  velho que morrera horas, dias antes (já nem sabia mais).
"Antes de partir, deixe-me sentar um pouco", pediu ela, à si mesmo. Riu. Riu dela ter pedido algo à ela. Sim. Ela tinha o direito de sentar-se. Estava, na verdade, cansada daquilo tudo. Cansada de viver fugindo, entre segredos russos e temporais. Cansada de não ter uma vida tranquila, como sonhara, anos antes. Antes de entrar em contato com aquela realidade toda.
Havia tempos que não sentia toda aquela estranha emoção que invadia seu coração. Não sabia o quê estava acontecendo. Decidiu, mesmo assim, deixar a lágrima vir aos olhos, juntamente com sua respiração ofegante.

Eis que de repente, da multidão que gritava palavras de ordem, surge uma menininha, de seus por volta de cinco, seis aninhos.

Na inocência linda da criança, uma mãozinha foi dirigida até suas vistas. A criança parecia ter pena dela. 

A menina disse algo, mas não entendeu palavra alguma. Embora estudada demais, conhecedora até mesmo de idiomas de nações longínquas, o português brasileiro não fazia parte do quê entendia.

O quê fazer? Como fazer a criança entender que ela mesmo não entendia?
Pensou consigo: Vou sorrir! O sorriso é universal!

Então, em meio às lágrimas, deixou que brotasse um sorriso triste, apertado, mas ainda assim, um sorriso. Que surtiu efeito! A menininha sorriu de volta, disse mais alguma coisa e voltou para junto de uns dois adultos que a observavam de longe. Toda animada, falava alegremente, sobre o fato de ter logrado êxito na missão de alegrar alguém que parecia não estar tão bem naquele momento de sua breve história.

Enxugou os olhos, olhou para a fenda, e disse, de maneira que pudesse se ouvir: - Vamos lá, Natasha. Eles precisam de você.