quarta-feira, 29 de março de 2017

entre chefes e trabalhadoras (es) o que escolher?

Certo dia, numa manhã qualquer estava sentada naquela  mesa, com uma das mãos no queixo enquanto a outra arrastava o mouse para correr os olhos nas  linhas dos contratos sociais para identificar se era falso ou verdadeiro e quais seriam uma tentativa de  fraude.

Era uma mistura de tédio e desânimo e cansaço às 07h e 50m da manhã. E no começo era normal chegar muito cedo, tendo em vista que morava muito longe e tinha que sair às 05h e 50m de casa para chegar às 08h em ponto.

Quando perdia o horário do ônibus ou tinha trânsito naquela maldita Anchieta chegava 10/15 minutos depois do horário ou então cedo demais. Acontecia também  de quase todos os dias sair após o horário, tipo duas horas depois ou mais.

Mas que porra que tanto fala de horário?

Calma.

É importante frisar a ação do – tempo - na vida de qualquer ser humano para tratar de qualquer assunto.

Adoraria poder falar de: unicórnios, flores, cabelos, ETs, unhas, gatinhos fofos, bichos fofínissimos,  músicas,  efeito sanfona ou qualquer gigolé, farofada, grelo ou caraio de frivolidades  deste mundo de coisas materiais e imateriais. Juro queria falar de qualquer coisa menos sobre a perda de direitos já conquistados.

É o que tem para agora, então vai.

Das 07h e 50m da manhã às 19 ou 20 horas da noite (pois nunca saia no horário, às vezes acontecia de sair até 21 horas) era tempo suficiente para observar tudo que acontecia com um olho no contrato e outro olho no curral/pasto/gado.

Eis aí a vantagem de ser quieta mas observadora. A arte de conseguir absorver mais do ambiente e da vivência para registrar na memória o que interessa.

Foi numa manhã dessa que os olhos saltaram e os ouvidos ficaram alertas para a presença de dois ou três homens, bem apessoados de fino trato que ficavam durante horas em cada setor e  alguns minutos com cada funcionário e horas e horas no computador escrevendo e escrevendo, era os tais auditores ou o momento de auditoria da empresa.

Qualquer ser humano que trabalhou em empresas de médio ou grande porte, no setor financeiro/lojas ou teve familiares e parentes que trabalhavam em chão de fábrica sabe o que são os momentos de auditorias que nada mais servem para avaliar ganhos e perdas, sejam de lucros e atividades da força de  trabalho numa empresa. No resumo geral, a ordem dos cortes.

Pois bem.

Entre fatos e exageros da rádio peão tinha de tudo, desde justificar esta auditoria com venda de logo/marca da empresa, ou venda da empresa até terceirizar o trabalho de todos, seja nas lojas, na matriz ou na fábrica. Veja que o assunto terceirizar era comum e também uma possibilidade desde sempre.

A auditoria como previa a rádio peão serviu para atualizar os donos da empresa do quanto estavam perdendo dinheiro e agilidade processual das atividades de trabalho com excesso de funcionários e cargos.

Noutras palavras a empresa que antes da auditoria tinha plano de carreira, faixa salarial, benefícios e carga horária diferentes de repente numa bela manhã todas as funções e salários dos funcionários das lojas foi padronizada, exceto o gerente que ganhava comissão de vendas.

Os funcionários com função de vendedor e caixa (30 horas), estoquista e atendente (40h) do dia para noite amanheceram com mesma carga horária (40h), salário e função - assistentes administrativos da loja -  exercendo todas as atividades a depender da necessidade. Então uma hora era estoquista, noutra caixa,  em outra vendedor e assim conforme a necessidade e remunerados com mesma faixa salarial e/ou igualmente. Aqueles que não aceitaram foram dispensados.

A redução de funcionários, cargos e salários e aumento de atividades  piorou a vida de quem não teve escolha e aceitou ficar. De inicio não sentiram a diferença porque foram dispensados e receberam direitos trabalhistas, logo depois recontratados e conforme os meses vieram descobriram a precariedade nas condições de vida e salário. Do financeiro percebia a rotatividade de funcionários  e as queixas de muitos com vários anos de empresa.

Cabe ressaltar que os auditores se basearam no mercado de trabalho americano, com ponderações de que lá não tinha essa distinção de cargo e salário  para funcionários de grandes redes de lojas.

A terceirização na prática visa exatamente isso, igualar salários e funções bem como aumentar a concorrência e carga horária uma vez que para garantir a vaga é necessário mostrar desempenho e produção ou noutras palavras o empregador e/ou contratante deve usufruir ao máximo do seu tempo de vida.

Agora imagina esta mudança no chão das fábricas para todas as atividades.

Imagina as profissões com faixa salarial reduzida e desvalorizada e independente da formação terão que aceitar as condições que forem impostas pelos contratantes.

Uma coisa é ver os trabalhadores do setor de prestação de serviços na maioria responsável pela limpeza serem terceirizados outra bem diferente é imaginar o médico, enfermeira, bancários, técnicos de qualquer setor, engenheiros e eteceteras sendo terceirizados e desvalorizados. Ah sem direito a rescisão do contrato,  nenhuma empresa terceirizada dispensa funcionário evita-se ao máximo pagar direitos.

No setor público a terceirização visa diminuir exponencialmente o número de concursos públicos para qualquer setor e aumentar a produção para como dizem por aí produzir riquezas.

Mas se ainda resta dúvida e acredita que a terceirização irá gerar mais empregos pense: por que os franceses não aceitam a reforma trabalhista mesmo dispondo de bem estar social mínimo?

 Mas a terceirização ainda tem como objetivo abrir o caminho para popularizar a ideia de profissional liberal e/ou autônomo, cuja finalidade é o trabalhador deixar de ser assalariado para ser chefe, ao invés de carteira de trabalho será CNPJ.

A falácia da autonomia e slogan: seja seu chefe, faça seu próprio horário e determine as suas condições de trabalho são ideias amplamente difundidas na grande mídia  há anos e com força total através das startaps sob a justificativa de que o país precisa investir no empreendedorismo, no campo das novas ideias.

PLIM!  NOVAS IDEIAS, GRANDES NEGÓCIOS! PLIM!

Os pobres e classe média almejam e desejam de todo ser se tornarem chefes (empresários, microempresários, microempreendedores) e não vejo problema nisso, se compreenderem que a sorte dos negócios não é para todos.

A desigualdade de oportunidades, de articulações (relações interpessoais que agora com gestores no Estado se ampliam) e investimento financeiros a título de crédito em financeiras e bancos é uma realidade e constatação para pequenos e médios empresários. Pouquíssimos fogem a regra, digamos 1/2 entre os poucos ricos que existem no globo.

A oportunidade financeira está destinada para quem  nasceu em berço de ouro, para quem tem história centenária com direito a herança. Você tem isso? Não. Então avia, anda e pisa ligeiro nas ruas para garantir seus míseros direitos.

Empresas individuais e empreendedoras não sobrevivem dois/três anos no mundo dos CNPJs, também não conseguem empréstimos e facilidades de investimentos, não se trata apenas da burocracia do estado, está para além e como dizem o Brasil é um cemitério de CNPJs.

A ideia de que o trabalho terceirizado vai aumentar empregos para girar a economia é para abrir precedente e oportunidade mais adiante de tornar você caro assalariado num trabalhador autônomo ou mais conhecido por pessoa jurídica.

Esse é o sonho de consumo da chefia dos mercados de trabalho e financeiros: consolidar o trabalho autônomo ou a prestação de serviço por meio do trabalhador liberal, aquele que emite nota fiscal e possui CNPJ.

Uma vez sendo pessoa jurídica deverá pagar mais impostos. Os impostos que hoje as empresas não pagam, mas financiam partidos políticos através de caixas dois será pago daqui alguns anos pelo trabalhador autônomo.

Então os favoráveis a esta modalidade de trabalho – trabalhador autônomo ou liberal  justificarão o trabalho autônomo em termos mais tempo e dinheiro. Agora você é o dono do seu tempo. Imagina quantos empregos será preciso para manter a sua família.

Outra justificativa é que o Brasil precisa se atualizar e aproximar da realidade dos países desenvolvidos, pois as formas de contrato de trabalho estão ultrapassadas.

A realidade de países desenvolvidos que investem as arrecadações de impostos no mínimo de bem estar social em educação de qualidade e saúde até certa idade não pode ser comparado com último país a abolir a escravidão e promove a proteção e integridade dos devedores da Receita Federal mantendo em plena atividade.

Também não podemos cair nesta falácia de que a vida irá melhorar quando querem nos vender a ideia de que existe um rombo na previdência por conta do número de beneficiários; quando sabemos que os maiores devedores da previdência são as empresas e portanto empresários.

Bora combinar um baguio aqui,  de  que forma levar a sério empresários que compactuam com trabalho análogo a escravidão, não pagam direitos trabalhistas e dispõem de brechas a la vonté nas leis para abrir novas empresas mudando apenas o número de CNPJ,  preferem pagar caixa dois ao invés de pagar impostos e concorrer no tal livre mercado capitalista?

Fala  sério hein.

Assim conseguimos entender o empenho da FIESP em marcar presença através do PATO em atos de 2015 a 2016.

Devemos notar  a liberdade política quando empresários devem milhões para a Receita Federal e nada acontece, quando se fosse noutro país aquele super desenvolvido é prisão na certa. 

Nos  EUA quem deve ou frauda a Receita Federal é preso e com direito a multa, o Lobo de Wall Street ilustra isso de forma bem didática.

Não é segredo para quem trabalha que os direitos trabalhistas sempre foram motivo de reclamação e desgosto  para os empregadores/patrões/empresários e chefes.

O trabalho assalariado e com garantia de direitos como conhecemos hoje ou até 22/03/2017 é um direito conquistado recentemente se comparado com período escravocrata (400 anos?!) quando a mão de obra negra e indígena  foi escravizada com o descobrimento desta terra para a exploração.

A Era Vargas foi a responsável pela implementação da CLT, o autor - Getúlio Vargas -  o populista ou  pai dos pobres como se referem na época consolidou esse direito no estado.  

De lá para cá temos quase 90 anos da CLT e pouco mais da metade de anos da consolidação dos direitos trabalhistas. Direitos que não se aplicam a todos, uma vez que em pleno século XXI existem denuncias de trabalho escravo inclusive de terceirizados pipocando pelo país.

Neste momento caótico com aprovação da terceirização do trabalho, (ainda que exista mandado de segurança) e retrógrado com reforma da previdência não existe separação entre direitista,  capitalista, liberalista, esquerdista, socialista, comunista e anarquista. A única separação existente é: trabalhadores (as) e chefes!


  

E aí o que vai ser?