sexta-feira, 12 de junho de 2009

¼. Dois.

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Raras vezes, mas da passagem de uma ou outra barata, uma música qualquer descia pelo vão da porta. Passava por debaixo dela e grudava nos ouvidos, que misturava com o barulho repetitivo da televisão e mandava sinais de dor pra cabeça. Não era possível como tamanhos moços conseguem ouvir músicas tão ruins como aquelas do repertório de Roberto.

Na sacada do primeiro andar, Luciano, eu, ou você, abri um isqueiro prata e acendeu. O enrolado de filtro branco foi se queimando e se queimando.

... a viatura voltava lenta e parou no sinal vermelho. O homem fardado olhou fundo nos olhos, como se soubesse que eles eram castanhos escuros e não claros, como sempre digo por aí. Como se algo estivesse apontando para uma denúncia naquele apartamento. Como se houvesse uma mulher morta no sofá da sala. Morta, mas ainda sem aquele odor típico dos mortos. Aquele pracinha foi devidamente cumprimentado com um aceno não-comum. Roberto, igualitário, jogaria uma pedra. Mas, da varanda, foi cortejado. Ele olhou por mais dois segundos e virou. E virou outra vez. E cumprimentou também. Pensei: como alguém não cumprimentaria, também? De fato, pensei em como aquele sujeito deveria se sentir desprotegido. Todos os policiais ficam na defensiva. Já percebi. Como não se sentir inseguro trajando uma farda, um colete a prova de balas e um trinta e oito na perna esquerda?

Luciano ainda refletia como o policial poderia ser tão defensivo quando o semáforo esverdeou pela terceira vez...

Ele se foi, o tirano. Já havia algum tempo. Mais um trago veio. A fumaça saia pelos buracos do meu rosto e Beto pela segunda porta à esquerda. Repetiu tudo outra vez. E outra vez. Durante alguns minutos. Tudo em preto e branco.

Aline mandou alguém calar a boca e deixá-la quieta por alguns segundos. E o mundo tomava cores.

Estranho. Deitado. Agora Roberto parecia calado.
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