domingo, 14 de junho de 2009

Uma fotografia ao lado da cabeceira

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"Há uma energia ética nos funerais. Um desespero pelo bem que lança pó de estrelas nos olhos e apaga os pequenos ressentimentos quotidianos. Amanhã voltaremos a invejar-nos uns aos outros. A maldizer o próximo pela calada. A trair grandes amigos em pequenos cafés de negócios. A ser bonzinhos só de vez em quando. Mas amanhã não estarás cá tu para gritar que esse de vez em quando é que importa. Amanhã não estarás cá tu para limpar o pó à humanidade e persistir na cintilação das almas."
Fazes-me falta, Inês Pedrosa.
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Girou a chave na fechadura da porta e abriu a maçaneta. Não queria entrar, mas sabia ser necessário. Era preciso enfrentar a dor e todo o peso da solidão, com o seu silêncio esmagador. A ausência de sons era o que mais o feria. Ainda lutava para acreditar que nunca mais escutaria aquela voz grossa, com um ligeiro sotaque pernambucano que insistia em permanecer, mesmo depois de 15 anos morando em São Paulo. Ainda de pé na soleira da porta, cerrou as pálpebras e foi como se o sentisse ao seu lado, sussurrando palavras de amor e gemidos abafados ao pé do ouvido. Abriu os olhos e caminhou a passos lentos em direção ao sofá. Jogou-se no estofado e sentiu cada vértebra do seu corpo moído, um farrapo humano de carne, ossos e células deterioradas. Olhou para a mesa de centro e contemplou o vaso rachado, herança da discussão mais feia que tiveram. Com um sorriso nervoso constatou que sentiria falta até das brigas, em que escolhiam cuidadosamente cada palavra leviana, ferindo-se do modo mais vil. Não queria lembrar, mas em cada metro quadrado daquele ambiente sentia a ausência da sua presença. Como apagar seis anos de companheirismo, vivendo debaixo do mesmo teto? Agora estava só. Daqui para frente seria apenas um prato e dois talheres na pia de louças, uma toalha no banheiro, um lado da cama desarrumado. Estava só.

Nenhuma daquelas pessoas imundas, que choravam à beira do caixão, pela manhã, saberia o que era isso. Cada rosto enlutado era uma máscara e as roupas pretas fantasias. Sabia que aqueles desconhecidos que o abraçaram, desejando pêsames, sentiam repulsa dele. Outrora escarraram em sua face, culpando-o por “levar o Ricardo para o mau caminho”. Sentia vontade de gritar e dizer que ninguém ali experimentava o pesar da morte como ele. Queria berrar, sacudir e espernear que não queria as lágrimas daquele bando de víboras preconceituosas, que não sabiam compreender o amor entre dois homens, dois seres do mesmo sexo que apaixonadamente desejavam-se. Não, ninguém ali compreendia a dor e muito menos o amor. Queria vociferar que todos viviam vidas de mentiras, não dando o devido valor para a importância de duas mãos entrelaçadas, um telefonema ao meio-dia, em pleno expediente, ou um ombro para apoiar a cabeça depois do sexo. Agora, ele nunca mais saberia o que era isso. De todo o amor restou um buraco no peito, um retrato ao lado da cabeceira da cama e a saudade mais bonita.