sexta-feira, 17 de julho de 2009

A “apesar de” e “aquela que só tinha qualidades”

Reencontraram-se após algum tempo de distanciamento. Daquelas distâncias forçadas, porque não dividiam mais o mesmo ambiente de trabalho e nem tinham tempo de se procurarem, uma vez que os atuais ofícios não lhes deixavam tempo de sobra. Mas foi preciso apenas dois minutos para que a amizade velha de guerra voltasse à tona.
Porque só elas entendiam determinadas expressões e porque certas histórias só arrancavam gargalhadas das duas. Naquele breve reencontro não puderam relembrar todos os momentos hilários que tinham dividido. Dedicaram-se mais a contar o que tinham feito nesse meio tempo – reviravoltas tamanhas – e filosofar sobre a vida.
Pararam em um café, onde diante do vai e vem de gente conseguiram pôr em voga suas divagações, que, igualmente, se dissipavam com o vento.

- Sempre quis morar em outro país – disse a mais nova.
- Às vezes eu me dou conta que se deu certo para tanta gente, eu deveria ter tentado. Mas agora já era – respondeu a outra, não tão mais velha, poucos anos a mais.
- Sabe, um dia você me perguntou uma coisa que me fez pensar bastante. Você queria saber onde eu sonho estar. Até hoje penso nisso. Para onde estou me projetando.
- Olha, hoje eu prefiro evitar de pensar.
- Ah, que boba.
- Pra que Londres, se a gente pode ter essa paisagem aqui, não é? – disse a mais velha, apontando para o lado de fora, onde a neblina, a chuva, as pessoas encasacadas correndo davam a impressão de que as duas estivessem incólumes em um aquário de vidro, enquanto a vida continuava do outro lado da parede.

A mais nova olhou a mulher diante de si e a invejou. Ela contava dos homens que, embora tivessem passado pela sua vida, de alguma forma estavam sempre presente. E de amigos e trabalhos e sonhos que vão e voltam. E teve a impressão de que a fortaleza diante de si não desmanchava por nada. Ou pelo menos não por muito pouco. Ora, ela era capaz de se dar bem em qualquer lugar. E enquanto isso, a menina pensava consigo se um dia haveria de ter essa capacidade de adaptação.
- Às vezes eu me sinto como aquele poema do Fernando Pessoa, que em um verso diz: “serei sempre só o que tinha qualidades”. Aquela que todo mundo diz: ah, mas ela é tão inteligente, tão querida. E a impressão que eu tenho é que eles queriam completar: Mas coitada. Essa aí vai ficar aí, não vai passar disso.
A outra, a fortaleza, balançou a cabeça.
- Então, eu sou a “apesar de”. Apesar de ter cara de chata, até que ela é legal. Apesar de ser rabugenta, ela até que trabalha bem. Sempre tem um apesar...

O tom de desventurança pairou no ar. Era hora de ir. De enfrentar o inverno lá fora. De esperar pelo próximo encontro. De saber que a outra sempre fará falta. Mas fará parte do que faz forte. E vai reaparecer, de surpresa, quando convir, ou quando quiser.