terça-feira, 14 de julho de 2009

Decifra-me


- Ontem eu terminei de ler um daqueles livros que quando chega ao fim deixa um buraco no peito, sabe? Estava pensando... Eu tenho um caso de amor estranho com a Literatura.
- Como assim?
- Por exemplo, eu julgo conhecer as pessoas pelos seus livros favoritos. Certa vez li diversos títulos da geração beat porque estava a fim de um cara. Ele era um aventureiro, meio hippie, participava de movimentos estudantis e andava com os cabelos negros em desalinho, pegando carona por todos os cantos do País. Idolatrava Kerouac. Em suma, era lindo e inteligentíssimo, combinação rara, doutor.
- E você acha que o conheceu mais profundamente pelos livros?
- Claro! É impressionante como as pessoas tendem a cultuar aquilo que elas se reconhecem ou que reflita o que elas querem ser. Outra vez li Tao Te Ching, depois de ganhar de um ex um livro de meditação que citava essa obra. Era começo de namoro, sabe como é. Fiquei intrigada com o presente, tentando descobrir alguma mensagem secreta nas entrelinhas.
- E você descobriu algo?
- Não, só que ele era um pouco espiritualista demais e que estava tentando me moldar ao seu gosto. Não durou nem três meses a relação.
- Me fale mais disso. Teve outros casos parecidos?
- Ô se teve! Escuta essa: uma vez um amigo que eu não via há anos me achou em uma dessas páginas na Internet e me convidou para sair. Fomos jantar juntos e eu percebi que ele estava com muito lenga-lenga pro meu lado... Veio com um papo de que gostava de piano e que estava escrevendo um livro, tudo muito forçado, sabe? Me controlei para não rir na hora. O cara não sabia nem fazer a concordância verbal direito e me dizia que era um escritor? Fiquei imaginando as pérolas que devia sair. “As criança foram...”. Juro, ele falava assim! Sem citar as mensagens que ele me mandava pelo celular. “Lindinha saudadez de você !”, com “z” e espaço entre a pontuação, acredita?! Não ria, doutor, é verdade.
- Ah, teve outro caso bizarro também. Já fazia umas três semanas que eu estava saindo com o André, não estava apaixonada nem nada, mas ele já estava insistindo para namorarmos. Até que um dia o assunto enveredou para Literatura e ele teve a pachorra de me contar que odiava ler. Sim, ele usou a palavra “odiar”. Ainda teve o disparate de dizer que tinha uma coleção de clássicos herdada do avô e que já tinha queimado diversas obras. Eu quase tive um surto psicótico quando ouvi isso e fiz ele me dar os livros que haviam sobrevivido a sua fogueira particular. Não preciso nem dizer que nunca mais saí com ele, né. O que foi, doutor? Por que está me olhando com essa cara?
- Estava imaginando qual é o seu livro preferido. Não vai me dizer?
- Ah, não! Você já quer concluir a terapia? Ainda estamos na terceira sessão para você querer me conhecer assim.