segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sobre borboletas e maldições

Vou fazer este texto como um diálogo livre e sem planejamento, um texto de improviso tal como Jack Kerouak, mas ao invés de escrever no rítimo do jazz, uma miscelânea musical de Elis Regina roda na vitrola virtual.

Hoje (19) sai para dar umas voltas de bicicleta e, não sei por qual motivo, me peguei pensando no livro O Escafandro e a Borboleta enquanto pedalava. Talvez o filme tenha vindo a minha cabeça por sentir que estou desperdiçando algo valioso, pois o filme apresenta, resumidamente, um cara que vivia da exploração da beleza e futilidade, era editor da revista Elle francesa até que perdeu todos os movimentos de seu corpo - menos o movimento dos olhos e, assim, através de uma técnica elaborada por uma pessoa próxima (acho que a enfermeira ou médica, não lembro bem) ele se comunica piscando os olhos: ela ia dizendo o alfabeto e, quando chegava na letra por ele desejada, ele piscava. Assim ele escreveu o livro O Escafandro e a Borboleta. A história é linda e verídica.

Bem, tento observar a vida por diversos ângulos que não os usuais, me ferrei muitas vezes por insistir em seguir um caminho que as vezes nem mesmo existia, teimo em não seguir métodos, arrisco, abuso, colho vezes coisas boas, vezes coisas ruins, mas o caso é que estou ficando velho e, na verdade, não construi nada de efetivamente relevante. Nem pra mim nem pra ninguém. Gostaria de oferecer ao mundo pelo menos um trabalho significativo, seja para o sentimento, para a alma, para a mente... talvez uma história, uma música, não sei.

Os dois parágrafos acima estão profundamente interligados. Há algum tempo, eu era um pai de família com 19 anos de idade e sem o segundo grau completo. Como a vida me cobrava pesado naquela época, tive que me submeter a qualquer trabalho, foi assim que me tornei porteiro - possivelmente o porteiro mais novo de São Paulo - assim fiquei por quase 3 anos. Apesar da frieza da vida dentro da portaria, onde eu era invisível, acho que foi alí que descobri o que eu era. As vezes pegava dois turnos seguidos de 12 horas no fim de semana e, ao ver os pais felizes brincando no playground dos condomínios com seus filhos, eu chorava mesmo, derramava lágrimas oculto pelo vidro fumê do aquário chamado portaria, que separava o porteiro do mundo social. Um dia, indo da minha casa para o trabalho, eu estava desolado dentro do ônibus pois sabia que tinha algum potencial e talento para ganhar mais do que 350 reais por mês. "Será que essa vai ser minha vida pra sempre? Será que estou morto em plena vida?" Eis que, ao pensar isso, uma borboleta pousou no vidro do ônibus, na parte de fora bem ao lado do banco que eu estava sentado. O que me chamou atenção foi que, no dia anterior, eu tinha assistido o filme de Patch Adams e me lembrei da parte em que ele está a beira de um precipício e pede um sinal para Deus. Nesse momento surge uma borboleta e ele compreende que aquele era um sinal. Pois bem, a minha borboleta estava alí na minha frente, numa posição um tanto desconfortável, numa base de ângulo 90 graus e se agarrando desesperadamente no vidro para que o vento não a levasse. Era como se dissesse "Ei Denis, não duvide de você rapaz, prepare-se pois sua vida vai mudar em breve". Ela resistiu por uns 2 minutos até levantou vôo e me deixou alí, bem mais leve e disposto a enfrentar o mundo e escrever minha história.

Alguns anos depois lá estava eu, publicitário e jornalista. Por um tempo isso me bastou, eu me sentia vitorioso mas... depois de um tempo, tudo parecia tão vazio. Escrever coisas que não eram sobre o que eu sentia, criar releases persuasivos e vendedores... aquilo não fazia mais sentido pra mim... eu queria mudar o mundo, por isso estudei jornalismo, parece que alguém me enganou.

Não, ninguém havia me enganado a não ser eu mesmo. Jornalistas não mudam o mundo, pessoas mudam. Era preciso ser uma pessoa, um ser humano, não um jornalista, porteiro, músico, médico, militar ou o que quer que seja, não é a profissão que muda o mundo, mas as pessoas que estão por trás destes títulos. Pedi a demissão da agência que trabalhava por me sentir mal com o trabalho e fui me dedicar ao meu blog e pronto.

Bem, assim estou há mais de um ano e ainda me sinto vazio.Tão subestimado quanto nos dias de portaria, tentando entender o que tinha dado errado até há umas três semanas. Seria a maldição humana o sentimento de eterna insatisfação? Ou talvez nossa maior dádiva seja a própria insatisfação afinal, ela nos move, nos tira da zona de conforto e nos motiva a criar, certo? Mas o que estamos criando aqui? (conversa que surgiu na casa de um amigo, enquanto bebíamos cachaça e tocávamos viola caipira, cajon e berimbau), um mundo cada vez mais confuso pra minha mente já confusa. Um corpo político que me dá aflição, ligamos a TV e vemos um tal de funk carioca que nada tem a ver com a gente, as modas refletem tendências estrangeiras e vejo vergonha nas pessoas em ser brasileiras, parece que vivem tentando passar uma ideia europeia ou norte americana de ser, com suas roupas e gostos, ser brasileiro hoje está definitivamente off.

Foi justamente por isso que decidi aprender capoeira e a tocar viola caipira no ano passado, mas depois daquela cachaça na casa do meu amigo, parece que as ideias ficaram mais... energizadas. Ligamos para um cara que toca funk num grupo chamado Comitê do Soul. Propomos a criação de um movimento legitimamente brasileiro - com toda a miscigenação que o brasileirismo pede. Durante a semana, falei com meu mestre de capoeira, falamos com estilistas e produtores de moda, fotógrafos, cineastas, jornalistas e produtores culturais. O resultado disso é que em novembro, o anfiteatro do CEU Aricanduva vai receber o lançamento do Movimento da Valorização da Cultura Brasileira, com música, roda de capoeira, desfile de moda baseada na brasilidade, exposição de fotos e mais ações que estão sendo voluntariamente agregadas. Uma série audiovisual também está em andamento e temos planos para teatro e dança também. A ideia aqui é fazer história, tem gente trabalhando para captação de recursos públicos (Rouanet/ PAC Paulista), gente trabalhando na assessoria de imprensa, gente querendo entrar... gente querendo fazer do movimento uma espécie de Tropicália ou Semana da Arte Moderna, os ânimos estão nas alturas.

Pois bem, sento-me aqui para escrever um texto de improviso no dia 19 e o termino no dia 20, relembrando um pouco da minha história e tentando justificar para mim mesmo e para o mundo de que vale a pena sair da zona de conforto para tentar mudar, criar, explorar, viver e que não é preciso nenhum escafandro para que nos lembremos disso. Graças a uma cachaça na casa de um amigo criamos coragem para fazer convites que as pessoas estavam esperando chegar há muito tempo. Convite este que estendo a você, que quer fazer história mas sabe, como nós, que é complicado ser percebido quando se está sozinho. Me mande um e-mail se quiser mais informações sobre o que está sendo feito e se quiser se juntar a nós será bem vindo. Fiz questão de que este blog fosse o primeiro veículo a publicar informações sobre o Movimento e que vocês fossem as primeiras pessoas a saber. Espero que daqui a alguns meses, ao relermos este texto, fiquemos satisfeitos com os resultados alcançados.

Fim do improviso, não vou nem revisar o texto, perdoem-me pelos erros gramaticais e tudo mais, mas assim o texto está mais sincero e vivo, agora... não se surpreenda se uma borboleta pousar do seu lado depois de ler.

Amplexos!