quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ressaca

Em meados de 2000 comecei a escrever uma série de contos chamada O Vale dos Leprosos, baseadas em experiências (há muito) passadas, sobre um grupo de transgressores perdidos pelos becos de São Paulo, vivendo exclusivamente para satisfazer desejos imediatos, afundados em ilusões mundanas e comendo o pão que o diabo amassou até começarem a perceber outros aspectos da vida e buscar um sentido real para ela.

Os contos ficaram escondidos do mundo durante um longo tempo, até que mostrei Ressaca, o primeiro texto da série, para um amigo. Eis minha surpresa quando o cara (Eduardo Pinheiro, guarde esse nome) resolve investir em um curta-metragem baseado no texto.

Por isso resolvi publicar Ressaca, o primeiro da série. Texto adormecido durante tanto tempo e que agora está livre e desperto, para quem quiser. Espero que gostem.

Ressaca

O Quarto estava sujo.

Havia copos quebrados e manchas de bebida no tapete. Aquele tinha sido o fim de semana mais louco que eles já haviam vivido, agora… Tomas estava vomitando o vazio de seu estômago no banheiro, ele já havia vomitado tudo, mas seu estômago insistia na ânsia em espasmos violentos, expelindo a própria bílis. Baco estava imóvel no sofá por umas três horas, devia estar desmaiado, o único indício de vida que ele demonstrava era um suave movimento da respiração, ao seu lado, mais êmese.

Aline não havia bebido tanto, mas fumou maconha a madrugada inteira e agora estava colocando “Heart Shaped Box” no CD Player (tudo o que Ellen não queria). Ellen estava arrependida de ter convidado seus amigos para passar o fim de semana em seu apartamento enquanto seus tios viajavam, a ressaca a torturava. Um cara conhecido como Licurí trouxe as drogas na sexta e, naquela hora, tudo parecia tão divertido, havia festa e sorrisos, tanta música e alegria. Agora, todos estão vomitando seus demônios, lutando contra um “eu” interno. Ninguém tinha forças, a cocaína levou toda energia e deixou o vazio, "She eyes me like a Pisces when I am weak" canta uma voz triste no ambiente. "Desliga essa porra!" tenta gritar Ellen, mas a voz não sai, nem a vontade de mover os lábios.

Ellen poderia estar se perguntando por que vivemos?, mas o desespero que sente agora anula quaisquer pensamentos sobre o sentido da vida. Ela quer apenas o alívio da dor que vem de dentro do seu crânio. Por isso, tudo que passa pela sua cabeça confusa é "Já estou morta, não importa o que aconteça e a culpa é toda minha, onde está Rabilú?".

Rabilú está morto, um acidente de carro o levou há três meses. Carlos está na cozinha, bebendo lentamente um copo de água gelada para que seu organismo não rejeite. Seu nariz está sangrando, mas ele não percebeu. Então ele pega o copo e vai para sala, olha para Baco deitado no sofá imóvel e ouve os gritos de ânsia de Tomas, ainda no banheiro. Em sua frente está Ellen, deitada no chão, mas acordada. Aline está em seu mundo de maconha escolhendo qual o próximo CD que vai colocar para ouvir, agora ela tem um do Velvet Underground nas mãos.

"Que dia é hoje?" pergunta Ellen para Carlos. "Hoje é segunda-feira".
"Meus tios estarão aqui daqui a pouco, estou ferrada, eu devia estar trabalhando agora, mas mal consigo falar. Carlos… a gente só faz merda né?".

Carlos olhava dentro dos olhos de Ellen, que agora pareciam mortos, amarelados, percebeu que ela cheirou cocaína demais, não havia lágrima alguma em seus grandes olhos castanhos. Ele quis dizer a ela que nunca mais iriam fazer aquelas bobagens, que não iriam mais beber tanto ou cheirar, seja lá o que for, mas sabia que não podia dizer isso, que na semana seguinte já estariam querendo se divertir novamente. Carlos sabia que Ellen o amava como a um irmão, eram amigos há muitos anos e sabia que tudo o que ela precisava, naquele momento, era de um abraço seu. Ele queria mais que um abraço. Desejava ser seu amante, mas apenas teve coragem de perguntar:
"Quer água?"
"Sim"
"Ok".