segunda-feira, 14 de setembro de 2009

São Paulo, 28 de setembro.

Às vezes as palavras me escapam. Recusam-se a fazer a ponte entre o pensamento e a linguagem. Entre a razão e o coração. Durante esta semana tantas vezes me senti assim, sem palavras. E mesmo agora, sentada diante do computador, tocando as teclas que me permitem transportar as emoções que sinto, faço um esforço imenso para te dizer tudo o que quero.
Parece-me que só agora estou digerindo os últimos acontecimentos. Ontem, quando estávamos sentados no vão do Masp, você questionou se eu carregava guarda-chuva na bolsa. Lembro que antes de sair de casa olhei para o objeto entre as minhas coisas e resolvi deixá-lo."Se chover, deixa molhar", pensei. Logo eu, que sempre carrego blusa e guarda-chuva, que sempre tento me proteger de tudo. O que quero dizer é que você conseguiu romper a redoma que coloquei ao meu redor. Ao te conhecer deixei de me preocupar com o amanhã e me permiti viver. Sei que existe um preço para isso e sei o que vou sentir nos próximos dias, mas eu não me importo, porque tudo valeu a pena. Tudo foi especial e bonito e intenso.

Você deixou a minha vida mais bonita.

Sabe, parece que ainda vejo você percorrendo maravilhado a região em que morava, com os olhos brilhando de emoção quando viu que ainda tinha a falha no elevador parecida com uma barata e, depois, passando as mãos na árvore em frente ao prédio, enquanto observava a calçada e a força da natureza diante do cimento. Eu vejo o menino que você foi e o homem que você é.
Hoje um amigo muito querido veio me visitar e disse que eu estava diferente, perguntou se eu estava amando. Tive o ímpeto de dizer que sim, mas me calei. Eu me protegi e me recusei tanto a viver esse sentimento, mas quando menos esperava senti brotá-lo dentro de mim. Não espero nada daqui para frente, sinceramente. E não me importo mais se vou sentir saudades, se vai doer (como está doendo) ou o que quer que seja. Tudo valeu a pena, tudo. Eu me entreguei a você de corpo e alma e foi uma das melhores coisas que já fiz na vida.
Enfim... Eu só queria dizer obrigada.
Não consigo mais escrever, desculpe.

Um beijo.

***

Rio de Janeiro, 29 de setembro.

Eu me despedi de você antes de entrar no metrô. Ainda olhei para trás e dei o último aceno, o último sorriso. O metrô entrou na escuridão e então eu me senti muito só, pela primeira vez em algum tempo. Abaixei a cabeça e comecei a chorar, um choro cada vez menos contido, e não tive vergonha de derramar lágrimas na frente daquelas pessoas. Quem ali não choraria no meu lugar, me perguntei. Lembrava de você ao meu lado, enquanto eu revia o prédio onde nasci, a rua onde nasci, a minha primeira escola. E a barata do elevador, e as raízes rebeldes da árvore rompendo o cimento, e a grade que não havia. Eu a via ao meu lado, me abraçando, me beijando, me dando seu afeto, sua presença.
Senti vontade de ligar, liguei, mas ainda não era possível dizer, menos ainda com palavra falada, que é exagerada, tagarela, perde a medida das coisas. Eu ainda não compreendo o que houve. Não saberia contar a ninguém. Não agora. Você disse que eu não tinha vergonha de nada, e eu ria internamente, ria de alegria, de gratidão, pois sei que minhas vergonhas já foram várias. Com você não senti nenhuma. Se você saiu da redoma, eu saí também.
Não sei exatamente o que dizer. Estou com saudade. Foi tão intenso! Fomos amantes de cinema, de filme francês, de filme underground. E, ao mesmo tempo, não fomos nada disso: tudo tão calmo, tão leve, tão sem vergonha. Eu me dei a você, é tudo o que eu poderia lhe dar, e também me sinto pleno pelo que foi e ainda é. Naquela noite, mesmo depois do metrô, enquanto eu caminhava por ruas escuras em direção ao hotel, eu chorei até secar as lágrimas, e deixei-as escorrer pelo rosto, pelo pescoço, pois eram lágrimas de quem estava vivo, absolutamente vivo.
Sigo com você, por inteiro, de corpo e alma. O que será, também não sei. Mas o que tem sido até aqui, para mim, já é inesquecível. Você é inesquecível.

Um beijo, meu amor.