domingo, 13 de dezembro de 2009

Sessão sofá


Ele nunca tinha ido ao cinema, mas tinha visto muitos filmes em preto e branco na tevê. Tudo girava em botões, sem vestígios de controles-remotos. O gato da casa gostava de dormir ronronando no calor do teto da tevê de válvula, edifícios iluminados dentro da caixa de madeira. Na tela, o mar vermelho se abria deixando passar os fiéis do deserto, com o faraó correndo em bigas, para naufragar quando Moisés descesse seu cajado a mando do Senhor. O cinema, para ele, era o sagrado: Jesus suspenso na cruz ressuscitando ao terceiro dia; Sansão tosado derrubando colunas; Lúcia, Jacinta e Francisco ante o fulgor da virgem de Fátima. O cinema era seu evangelho. As mil possibilidades nas chagas abertas do Cristo, muito antes de 2001, de A guerra do fogo, a metafísica de Solaris. O cinema era sua descida ao inferno. Rezava, herege, para que a professora morresse para não perder a reprise de Fúria de titãs; Simbad, o marujo, Jasão e o velocino de ouro e o tosco vôo de Aladin. Os mesmos filmes exaustivamente repetidos na Sessão da tarde, vistos como se da primeira vez.