sábado, 13 de março de 2010

Do amor ou Para os que nunca dizem eu te amo

Sei que o amor exige palavras fáceis, para soar sincero, como velhos boleros, guarânias, calipsos e baladas. Não sou desses. Não rimo flor com amor, coração com paixão, nem me empenho demais, também, em rimas ricas. Escrevo o amor com a palavra sargaço, intuindo um azul que pode ser mar e céu e viração de seu olhar. Digo, apolíneo, como quem alinha o sol tendo à vista a extensão da sombra. Contorno o amor sem brusquidão, roço-o, não toco, sem desespero. Meu amor não "desfalece", ele tomba, precipitado na palavra abissal. Porque o meu amor exige sempre o melhor de mim, que a minha língua adivinhe o melaço, bagaço de cana, mel e melissa. Que a palavra escrita exprima exímia, sua delícia. Falar de amor sem paixão? Sem a ilusão da eternidade? Amor sem coronárias, pontes de safenas que não vão dar na aorta?

Mais que palavra, o meu amor é carne, e amo mais o gosto deste encontro de corpos, do não-silêncio dos lábios em busca, as artimanhas das mãos mudas, o braille cheio de manha em curvas, a virtuose dos instrumentos que dedilham finos mamilos salientes. Meu amor é todo dança, música e alguma luta desesperada. É brega, franco-atirador de setas, coração partido, bobo de paixão, coitado; e mundo-cão.

E eu queria tanto trocar o “sabe" que eu te amo pelo “eu te amo” sem sabedoria, na mesma entrega desses náufragos que só vêem pela frente o mar.