quarta-feira, 24 de março de 2010

Noite ordinária

O quente dos corpos recém desentrelaçados ainda se pronunciava no ar. Apenas no ar, porque nas veias dele o líquido gelado. Esfriara quase na hora quando ela, mais uma vez, interrompeu-lhe o vigoroso impulso masculino. Ele mal entendera, na verdade mal ouvira suas explicações infantis, femininas. Explicativas. Ele entendia era a linguagem do corpo. Reconheceria melhor uma mulher tocando-lhe o interior, de olhos fechados, ou sentindo-lhe o cheiro das axilas, do que lhe observando uma foto três por quatro.

“É a última vez. A última”, prometeu a si mesmo. Virou-se de costas para ela e fingiu adormecer. Enquanto repetia a promessa em silêncio, como num mantra, mantinha impaciente um ouvido atento à respiração dela – que não tardou a se tornar pesada. Dormia, tranqüila. Certa de que na manhã seguinte teria novamente a graça de sua paciência.

- Desta vez, não. Ah, não – pensou, quase alto.

Levantou-se bem devagar, como se equilibrasse uma bandeja cheia de taças. Levou minutos. Ainda assim, despertou-a. Inventou uma desculpa qualquer sobre ir ao banheiro. Nem precisou explicar o que faria com um cobertor e um travesseiro em tão desconfortável aposento, pois ela logo voltava ao sono dos justos. Buscou na sala o notebook e, envolto no cobertor, começou a dedilhar a confissão sobre a noite de fome.