terça-feira, 6 de abril de 2010

O funeral da Bisa

Mais um dia de chuva fina e interminável em um funeral, parece que sempre chove quando algum conhecido morre, desta vez era minha bisavó, 96 anos. Não sei explicar o porquê, mas não fiquei surpreso com a notícia e nem triste, bom quanto à surpresa tem explicação, quando alguém tem 96 anos você sabe todo dia que um dia pode acordar com um telefonema lhe informando o horário do velório e funeral.

Em relação a tristeza eu não consigo ver muitas coisas positivas em se viver tanto tempo, copas do mundo? Minha bisavó nem gostava de futebol mesmo... Netos e bisnetos? São legais até o momento em que acham que suas bochechas são feitas de plástico e seus bolsos não tem fundo. Terei eu me deixado ser influenciado tanto pela leitura de “o estrangeiro” que agora estou me parecendo com seu personagem central? Talvez.

Quando cheguei ao cemitério já havia muita gente, muitos cumprimentos, reencontros de longa data, abraços longos e conversas, se minha bisavó estivesse viva certamente iria distribuir alguns cala a boca. Minha mãe contava á minha tia a receita do frango que ela havia feito na noite anterior, meu padrinho contava sobre sua ultima viagem e todas as peripécias que alguém que acabou de se separar pode fazer.

A sala já está cheia, muita gente fica do lado de fora fumando, alguns começam a recordar os melhores momentos da bisa, suas sapequiçes quando era criança, seus namorados estranhos (incluindo o meu bisavô), suas manias de velha – como trocar os nomes dos netos, dormir no pé da cama e cantar absurdamente alto enquanto se trocava – o dia que ela comprou o produto para tingir cabelo da cor errada e apareceu de cabelo azul (era natal...) -.

Rapidamente estavam todos enturmados, as crianças brincavam de esconde-e-esconde entre os túmulos, o vinho que alguém trouxera como presente de aniversário para um primo que mora longe foi aberto e muita gente já começava a falar coisas que não deveria, até que chegou a hora da cremação. Não sei por que minha bisavó quis isso, acho uma cerimônia cansativa e agonizante para os que ficam e nada honrosa ao defunto (acho que alguns têm essa pretensão), fomos todos para uma sala onde o caixão ficava no centro, como se fosse o palco e o morto o ator principal, a gente em volta e em círculo éramos a platéia e foi ali que surgia a primeira piada mórbida - se existia algum vendedor de pipocas por perto - fez relativo sucesso. Depois que todos estavam devidamente acomodados surgiu repentinamente Bach e sua Toccata em Fuga, nos primeiros acordes já uns cinco pularam, uma amiga da minha bisavó teve ataque de soluço teve que se retirar da sala, algumas pessoas não seguraram o riso enquanto outros se perguntavam qual era o próximo passo.

O caixão começou a descer, parecia que ia ser o fim da cerimônia, mas foi então que o caixão travou não se sabe se foi problema elétrico, alguma coisa relacionada à máquina, ele simplesmente não desceu, funcionários correram para tentar consertar, foi nessa hora que acabou a música de Bach, que deu lugar a Maracangalha, foi um caos... Os funcionários berravam e corriam tal qual as crianças, estas assustadas e confusas, algumas pessoas tentavam ajudar, minha avó chorava, eu e meus primos rolávamos de rir, o caixão desceu de repente e então começou uma série de barulhos, a gente não sabia se estavam quebrando o caixão ou se os funcionários estavam brigando.

Terminado o “espetáculo” parece que todos estavam mais aliviados, antes de entrar no carro alguém disse ter ficado sabendo que no próximo enterro prometeram uma música melhorzinha e mais animação, muitos após o funeral foram para casa, minha mãe mostrou o famoso frango para minha tia que anotou com entusiasmo a nova receita, mais vinho e cerveja derrubaram rapidamente os foliões que não demoraram muito a ir embora.

Foi o melhor funeral que já fui e a ultima boa lembrança que tenho de... Perae, mas quem morreu mesmo?

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Vlad Galli