sexta-feira, 9 de abril de 2010

"Um amigo espanhol"

Vivo longe de todos os meus melhores amigos. Já estou acostumada, faz parte do meu show, tenho muito talento para o cargo de amiga à distância. Mas não tenho medo de admitir que sinto falta das músicas que me ajudavam a dormir nas madrugadas insones pré-formatura. Dos almoços com suco de limão com rosa seguido de um filme aos sábados, dos abraços coletivos na hora do gol no estádio, do cafuné feito com as pontas dos dedos no ponto mais alto da testa. De fazer o ridículo e se divertir mais do que ninguém nas aulas de Badminton, das intermináveis partidas de Literati, dos torneios de Tetrinet, de fazer as palavras cruzadas a quatro mãos e dividir o Danette ao som de Pat Metheny. De passar as tardes escutando a Rádio Mix enquanto estudamos química, afogar os sonhos mortos em suco de amarelo no bandejão do Coseas e depois ver as nuvens passarem por cima da Torre do Relógio. De adotar as gírias alheias e recontar as mesmas histórias, brigar para que o Estatuto esteja 100% correto, não importa o cansaço dos envolvidos, e o Manual não tenha nenhum erro ortográfico.

Amanhã você entra nessa lista. Graças à sua partida, a média de altura do grupo de amigos distantes vai subir, é você é o primeiro sócio masculino desse clube que tem mãos pequenas o suficiente para entrar nas minhas luvas sem rasgar-las. Sempre são bem-vindos os integrantes que usam óculos, preferem o Desmond, dançam como se ninguém estivesse olhando e não perdem a compostura depois de beber, porque não precisam de ajuda para praticar a sinceridade.

Da próxima vez que eu fizer um resumo como o do primeiro parágrafo, mencionarei a saudade de ganhar sempre no quebra-cabeça e perder sempre no campo minado, ou a falta que me faz engasgar com a mistura da ventania, a paisagem alucinante e a companhia de alguém que se ofereceu para estar ali tomando vento de graça. Omitirei seu nome e te citarei apenas como “um amigo espanhol”.

Se me pedirem para detalhar um pouco mais, talvez eu lhes diga que nos demos muito bem porque compartilhamos a mesma visão de mundo, apesar de que a maneira como aplicamos essa filosofia na prática é diametralmente oposta. E que ajudou consideravelmente o fato de que desde o início só poderíamos ser amigos. E que era um momento em que me faltava ter por perto essa visão de mundo parecida. E que poderíamos ter tido o triplo do tempo, não fosse pela minha mania de começar as coisas e deixá-las pela metade, mas que isso não importa porque se eu não fosse caótica talvez não fôssemos amigos.

Pode ser que eu lhes conte sobre como ontem falávamos sobre mais uma das nossas muitas diferenças. Você não gosta de quase ninguém e eu gosto de quase todo mundo. Você desviou o olhar e fez aquela cara séria que deixa teu rosto ainda mais esguio e destaca teus óculos de armação preta e grossa. E então pairou uma pausa dramática, à qual contribuí porque preciso de tempo para entender o teu espanhol prolífico e em baixo tom. Também costumo esperar para ver se um dos cantos da tua boca vai se encolher e revelar a ironia que vive na ponta da tua língua e corta seis cabeças de quase todos os bichos.

Mas vão dizer que é amor, isso de ficar falando sobre os cantos da tua boca, a cor dos teus óculos e o teu vocabulário. E eu vou ter que dizer, mais uma vez, que não, não é amor. Mas eu não gosto de mentir, e eu sei que sim, é amor. Mas amor de amigo. O problema é que ninguém se interessa por amor de amigo, platônico, simples e natural. Esse tipo de amor não esgota a bilheteria, não entope a caixa de comentários e não sobrevive muito tempo às fofocas do almoço de domingo. Todo mundo quer emoção, intriga, histórias épicas, braços ao ar e vozes alteradas.

Mas nem tudo na vida precisa lembrar uma novela. Às vezes é bom se contentar com pouco. Quando o pouco basta, o pouco vira muito. E mais não poderia pedir.