segunda-feira, 17 de maio de 2010

O par

Ele a viu de longe. Rodopiando, descontraída, leve. Não fosse pela mão que arrumava insistentemente a franja para o lado esquerdo, um tique nervoso. Talvez isso imprimia nela um certo ar de inquietação. Ele a observava, rodeada de amigas, divertindo-se, rindo muito. Não conseguia tirar os olhos dela. Decidido, atravessou o salão da festa de casamento e a surpreendeu de costas, sussurrando-lhe ao ouvido:
- Tenho medo que você possa escolher as três primeiras opções, mas estou apostando na quarta.
Ela se virou, surpresa, e lhe lançou um olhar de indagação. Ele continuou:
- A primeira é que você tem namorado, a segunda é que você gosta de mulheres e a terceira é que você não fala português.
Ela riu, riu muito. Abriu a boca para dizer:
- Eu ia fingir que era surda-muda, mas, como não contive o riso, não ia colar. Qual é a quarta opção?
- Que sim, que você aceita dançar.
Deixou-se levar. Não acreditou quando ele lhe disse que não tirou os olhos dela a noite toda. Mas dançaram muito, riram muito. Nesse meio tempo ela conseguiu derrubar champagne no casal que dançava ao lado, quebrar o salto da sandália e ostentar no dente da frente, por cerca de 30 minutos, um pedaço de cheiro verde do canapé.
Ficaram a noite toda juntos. Ele estranhamente abobalhado diante dela, que contrariava estranhamente todos os clichês.
Passaram-se dois, cinco, sete anos daquele dia. E eles continuam a se divertir, a dançar como daquela vez. Conforme a música.
De fato, ela era inquieta. Mas com ele se sentia absurdamente completa. Encontrou o lar que tanto buscou. Não num lugar, mas em alguém. Ele, por sua vez, se via pleno. Pleno da certeza de saber de uma vez por todas. Sim, era ela.