segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Amor entre homens

O amigo estava em Buenos Aires. O amigo, não um amigo. É que, beirando os 30 e solteirão, ele via seu receio de "ficar para tio" crescer à medida em que crescia sua testa. Uma testa imperialista, que ia impiedosamente anexando territórios abandonados por fios de cabelo desertores, sob os anúncios apocalípticos de uma peste de nome Calvície. Como o amigo compartilhava da mesma situação e receio, pouco a pouco iam se tornando uma espécie de irmãos. Gradualmente, instalava-se uma relação que transcendia o rotulável.

Pois quando ele digitou em seu aparelho os 8 números do telefone do amigo, eram 5 horas e 16 minutos da madrugada de 1º de março. Foi atendido pela caixa postal. Sem motivo, decidiu apagar a mente e acender o coração, exatamente como se houvesse um interruptor para tal. E disse, sem pensar, para aquele receptor de mensagens robótico:

- Po, queria tanto falar contigo neste exato momento, e o máximo que consigo é falar com esta máquina... mas, pensando bem, tudo bem. Tendo estes segundos para ouvir minha própria voz, acho que acabo de descobrir: na verdade, só ia te dizer coisas banais, mesmo. Nada justificadamente importante a uma hora dessas. Aliás, que bom essa vontade de te dizer coisas cada vez mais banais. Quanto maior a banalidade, maior nossa proximidade.

E desligou o telefone. E percebeu que o amor pode ter mais versões do que aquela que aprendera com a novela, nos idos de seus 9 anos de idade.