segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As últimas palavras deste nosso amor

Por Gilberto Amendola

(...) pode ser amor de roupa no varal. Não, não, desculpe, um amor de vento batendo na roupa estendida no varal. Não, não, um amor de flor na janela. Não, não, digo,amor de vaso de flor no parapeito da janela. Melhor, amor de flor no parapeito da janela do oitavo andar. Ou ainda, amor de flor no parapeito da janela do oitavo andar, onde suicidas ganham asas. Ok, que seja, amor de arranha-céu, sem roupa no varal, flor na janela ou seres alados. Pode ser um amor árido. Amor de cactos quando se abraça. Amor de espinho quando passa. Ou prefere amor deserto do Saara? Amor grão de areia dentro da ampulheta. Amor de ponta-cabeça. Oásis de bolso também é amor. Cantil que transborda vodca. Quer um amor ressaca? Amor que descasca. Neve de células mortas sobre o ombro do capataz. Pode ser o amor uma boca cheia de dentes? Meus dentes cheios de fome, minha fome cheia de carne, minha carne cheia de alma, minha alma cheia de nada, meu nada cheio de números, meus números cheios de passado, meu passado cheio de sentido, meus sentidos cheios de razão, minha razão cheia de emoção, minha emoção cheia de lágrimas, minhas lágrimas cheias de riso, meu riso cheio de saudade, minha saudade cheia de você. E o que era você está cheio de trincos. Mas ainda é amor, viu? Amor que se excede. Amor de troncha, de revista velha, de páginas em branco e de rascunhos – o rascunho de um assalto a banco. Amor de ligar os pontos, colorir espaços, dobrar bordas,contornar curvas e beber água da chuva até se afogar. Amor que sabe mergulhar. Conchinhas do mar. Caranguejos. Pérolas. Amor de pedra falsa em pescoço de madame. Colarzinho sem valor. Espelhinho de índio é o meu amor. Amor barato. Promoção de sentimentos, liquidação dos desejos, suaves parcelas. Abaixo do custo é amor. Pague 1,leve2.Tem que ser amor desperdício,amor de torneira aberta na cozinha. Amor que pinga. Amor conta-gotas. Amor tic-tac de relógio atrasado. Pode amor assim? Amor que chega quando ela já foi embora, amor que é sombra (amor que é sobra), lampejo,restinho de perfume na sala. Amor que viaja. Tudo bem, amor que vai de trem, avião, balão de gás. Amor, amém. Esse amor, nosso amor,pode ser amor virtual, só durante o carnaval, cometa Halley no céu de setembro. Tem amor que é seco – e que também é nosso. Ou amor polvilho. Migalha também é amor. Olha quanta formiga marchando sobre os restos desse amor! Não, não, não pise neste amor inseto. Mesmo dedetizado ainda é amor. Ou não? Amor de casa limpa. Poeira embaixo da mesa. Moedas no vão do sofá também são valorosos sinais de amor. Esqueci no bolso da minha calça aquilo que chamava de amor. Joguei na máquina de lavar e esperei. Amor que roda deixa a gente tonto. Antes fosse carrossel, roda -gigante, pula-pula. Só pra rimar: amor é mula. E se você quiser, amor é tanajura.Não,não é da pura, não é da boa, não é daquela
que você mais gosta. É só amor que encaixa. Ah, e se faltar uma peça é o amor que nos resta. Talvez o único, o último, o derradeiro. Talvez, quem sabe, o mais bandoleiro. O tal amor bandido – fugindo de pangaré. Amor que vai a pé, gasta sola de sapato, amor língua de fora. Amor exausto. Cansou de tanto amor? Amor até a tampa. Chega, meu bem, assim balança. A morde vida inteira, dia à toa, brincadeira. Amor de reticência. Antes que você esqueça deste amor que é marca de nascença. Carimbo. Papel timbrado –firma reconhecida feito amor de advogado.Entendi, é amor de papel passado (mal passado). Amor pingando sangue. Amor de derrame.Tanto esforço e o amor foi parar no hospital, paciente terminal. Lindo de ver morrer esse nosso amor. Os desertos da alma nunca são suficientemente secos...