sábado, 30 de outubro de 2010

Quem tem um sonho não cansa

"É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho e de realizar escrupulosamente nossas fantasias; sonhos, acredite neles"
Vladimir Ilitch Ulianov Lênin


Estudante na Escola de Cinema de Munique em 1997, Florian Henckel von Donnersmarck estava em busca de ideias de roteiro para as aulas. Agitado com a falta de inspiração, certa noite ele se deitou no chão de seu quarto ouvindo Beethoven.

Enquanto a mente divagava, lembrou-se de algo a respeito de Lênin. Dizem que o líder comunista evitava ouvir a Appassionata de Beethoven, pois essa peça o emocionava tanto que tinha medo de tornar-se manso demais para implementar seus projetos revolucionários. “Se eu a continuar ouvindo não levarei a cabo a revolução”, teria dito.

De súbito, von Donnersmarck concebeu a trajetória de um homem cuja humanidade seria resgatada por meio da música. Assim nasceu Das Leben der Anderen (A Vida dos Outros), filme que 10 anos depois receberia o Oscar de “melhor filme estrangeiro”.

Revi essa preciosidade nesta semana e pesquisei um pouco sobre a peça de Beethoven. Dividida em três movimentos, dura aproximadamente 23 minutos. O compositor escolheu o tom de fá menor provavelmente porque a tecla mais grave nos pianos da época era um fá. A nota aparece em profusão ao longo da peça, lhe conferindo um matiz sombrio, por vezes interrompido por laivos de arrebatamento que parecem não se consumar.

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, escolhi a peça de Beethoven como trilha sonora. Conhecer o nome do novo presidente exatamente na considerada “noite sagrada” (hallow evening, em inglês) não deve ser mero capricho etimológico dos deuses. Vou resistir à quase inevitável blague que consideraria mais adequado chamar o “Halloween” de “Dia das Bruxas”, a fim de homenagear a provável ocupante da cadeira presidencial. A imbecilidade chegou a níveis tão absurdos durante a campanha que vamos levar um tempo para voltar ao tradicional bom humor verde-amarelo.

Na peça de Beethoven não há pausa entre o segundo e terceiro movimento, exatamente como vai ocorrer no Brasil. A sensação de continuidade será a mesma, a despeito de quem for eleito. O papel de Regina Duarte em 2010 foi desempenhado (canhestramente e sem trocadilho) por Paschoal Piragine e a desilusão parece ter vencido o medo.

Ouvir repetidas vezes a Appassionata aguçou minha mansuetude, proporcionando quase uma verdadeira brochura cívica. Felizmente, descobri uma versão com um delicioso tempero jazzístico. Não é hora de perder a ginga, ainda que ela venha em passos ½ desengonçados como a da violinista Naoko Terai.

Sonhos podem se transformar em pesadelo coletivo, como no caso de Lênin. No entanto, não me faculto ao direito de não participar desse momento ou de deixá-lo passar literalmente em branco. A porção poliana que vive em mim continua se equilibrando como a esperança da canção do João Bosco. Além da música, tomo emprestado do cineasta alemão uma frase que ele encontrou num pacotinho de açúcar e que o acompanhou durante todo o período de concreção de seu sonho: “O caminho do menor esforço só é asfaltado no começo”. Quem vem comigo? o/