segunda-feira, 25 de abril de 2011

Inverno da alma

Quanto leva um cadáver até gelar?...

(a criança maior empurrava a menor no balanço do parque, riam)

...lembro do caiçara furado de tiros no chão, aquela noite. Meia hora depois veio a ambulância preta da prefeitura, carregaram-no, ainda estava mole. Mais que 30 minutos, portanto. Mas não muito mais: lembro do corpo de meu tio, já mumificado quando finalmente foi removido, é que na periferia o IML leva muitas horas para chegar.

(balançavam agora mais forte. Gargalhavam. O pai gritando “cuidado”, mas os olhos no jornal).

Leva menos que um dia.

Imagine então um morto largado sobre a terra por anos – decerto estará petrificado. Assim estou. Gelado. Dê-me um bilhete da loteria premiado ou uma sentença de execução a pedradas, meu coração reagirá igual. Está morto.

(agora corriam pelas árvores. Entraram na casinha de madeira, pintura desgastada. O pai ao celular).

Como se vingar da assassina de minha alma? Como retribuir a ela, feliz e ingrata, toda a dor que agonizei até ser enfim cadáver ambulante? Qual o troco da rejeição? Matá-la? Besteira. A morte liberta. “A melhor coisa da sua vida ainda vai acontecer”, dizem.

(Ele saca da jaqueta folgada um taco de baseball cromado, o olhar inexpressivo. Neste momento, o pai abaixa o jornal, procura com os olhos, não encontra as crianças).

Aliviar o peso da vida é um favor. Concedo-o a seus entes queridos, fora da caridade não há salvação. Mas a ela não, não devo favores. Viverá. Moribunda, abandonada. Sem crianças, sem marido. Oca.

(a criança menor, afoita, espicha a delicada cabecinha para fora da janela rústica, sorrindo matreira. Ele agarra firme o bastão, com as duas mãos).

Para tomar a água, é preciso quebrar o côco.