sábado, 7 de maio de 2011

Tem fogo?

Texto de: Marcelo Antunes.

Começar a escrever, mesmo para quem gosta, nem sempre é tarefa agradável. Confesso que, nos últimos tempos, dona Inspiração não tem dado muito as caras para o lado de cá, e produzir um texto, por mais bobinho que seja, tem sido trabalho árduo para mim. Na realidade, meu grande problema é mesmo o início. Depois, eu pego no tranco e, quando vejo, lá o ponto-final, cravado e, graças a São Machado, mais um trabalho concluído.

Quando o Luís me contou sobre o convite para escrever no Blog das 30 Pessoas, a primeira pergunta que me ocorreu foi essa: “Eu posso escrever sobre qualquer tema ou há um assunto determinado?” . Ele então, me explicou que variava muito. Em alguns meses, o tema era livre, em outros, a equipe escolhia um. Para maio, por enquanto, não havia nada fechado, embora houvesse uns buxixos que o tema das postagens seria ele. A chaminé do diabo. A chupeta do capeta. Ou, para os mais íntimos, o bom e velho cigarro.

Eu sou de um tempo - quem espalhar, leva porrada - em que comerciais de cigarro eram exibidos, em qualquer horário, na tv. Lá estava o moleque assistindo a Turma do Balão Mágico ou o Xou da Xuxa quando entrava no ar a propaganda do Hollywood, com seus caras bonitões cercados de moças gostosonas, todos felizes, andando de jipe, saltando de paraquedas ou voando num balão, embalados por uma trilha sonora bem chiclete. Uma que ainda está bem viva na minha memória era a que tinha Miles Away, do Winger: “Miles away, no, you're turnin' back/ And I just can't wait anymore/ Miles away, nothing left of what we had/ Just when I needed you most/ You were miles away”. Eu me amarrava na propaganda e, ficava ali, me imaginando no meio dos bonitões e das gostosonas, ora no jipe, ora no paraquedas, ora no balão. E nem por isso me tornei fumante. Prova de que uma coisa, nem sempre, tem a ver com a outra. By the way, se tivesse que ter sofrido algum tipo de influência, nesse sentido, ela teria vindo de dentro da minha própria casa: minha mãe fumou por 30 anos, a despeito da turma do contra - marido e filhos. Cresci vendo meu pai lhe oferecendo mundos e fundos - casa na praia, carro novo, viagem nas férias - para que ela abandonasse o “maldito”. Ela dizia que começou a fumar por vontade própria, e se, um dia, tivesse que abandonar o “hábito”, seria da mesma forma. Vale ressaltar que no tempo da mamãe, não havia as propagandas sedutoras do Hollywood (“Hollywood, o Sucesso”). Tá, havia o cinema com seus astros e estrelas, sempre ostentando um cigarrinho charmoso entre os dedos, quase como um coadjuvante. Afinal, como esquecer de “A Estranha Passageira” (ok, mamãe ainda nem tinha nascido), onde o Paul Henreid acende dois cigarros na boca, entregando um para a Bette Davis? - confesso, sempre quis fazer isso. Reza a lenda, aliás, que o gesto foi improvisado por Henreid na hora e que o jeito de Davis fumar foi imitado por décadas pelas mulheres e travecos americanos.

Hoje há patrulhamento para tudo e é raro encontrar personagens fumantes em filmes e novelas. Comercias do gênero foram banidos. Não tenho exatamente uma opinião formada a respeito, mas admito que tenho saudades desse tipo de propaganda. Foram as mais bonitas que já vi. Pelo menos, é o que a minha memória de criança guarda.

Minha mãe parou de fumar do jeito que sempre quis. Um belo dia levantou, deu na veneta e falou que não queria mais saber daquilo. Jogou o maço fora e nunca mais pôs um cigarro na boca.

Ah, só pra constar: ela não ganhou casa na praia, nem carro novo, nem viagem nas férias, coitada.