sábado, 4 de junho de 2011

A arqueologia dos amantes (por Gilberto Amendola)


por Gilberto Amendola

Tem um quê de amor falido nas unhas roídas da manicure espanhola; no sono assassino dos caminhoneiros; nos 130 kg de obesidade mórbida da colegial; nos orelhões quebrados da Avenida Paulista; na voz fanha da operadora de telemarketing; no dinheiro gasto com putas coreanas. Tem um quê de amor falido (triste de tão falido) no abraço das múmias do Mosteiro da Luz.

Os cupins devorando o que passou. Tirando da carne todo vestígio de vida. Decomposição do ser. Até que reste apenas o essencial. Até que tudo fique no osso. Amor no osso. Paixão no osso. Ilusão no osso.
 
Tem um quê de amor fudido nas canções que só tocam na cabeça dos portadores de síndrome de down; nas máquinas de pegar bichinho dos shoppings centers; nos chuviscos da tevê fora do ar; naquele pedaço de pizza fria no fundo da geladeira; na dor da bailarina carioca que perdeu um dedo em cena; no oitavo copo de café antes do meio-dia e no sexo sem dia seguinte.

Os cupins brincando no oco do coração. Poeira no peito aberto. Não cicatriza mais. Não cicatriza nunca. Como pode amar alguém se não pára de tossir.
 
Tem em quê de amor surtado nos relógios parados; nas cadeiras de balanço sem ninguém; em aquários sujos; nos cavalinhos de carrossel; no pôster de mulher pelada da borracharia; nos tamancos quebrados; em postos de gasolina abandonados; em garrafas pet que navegam solenes pelo Tietê; nos blogs esquecidos depois do primeiro mês.
 
Quando o futuro chegar, os cupins já terão feito seu trabalho - perpetuado nosso passado no osso.