quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Carta de Elise

O inverno havia chegado mais cedo naquela pequena cidade do interior de Pernambuco. Chovia horas seguidas. Pausava. Voltava a chover. Alagava Ruas e calçadas. Praças. Banhava e arrastava o que via pela frente. Muita coisa ficava fora do lugar após cada precipitação. E muita coisa voltava ao seu lugar em seguida.

Nesse período quase não se via pessoas nas ruas. Apenas aquelas que, ou precisavam de fato sair, por algum motivo justificável, ou de fato viviam na rua.

Elise se enquadrava na primeira opção, pois que lhe eram justificáveis as suas saídas. Ao menos para ela.

A chuva não era impedimento para ela seguir com sua rotina inadiável.

Nem os trovões, nem os relâmpagos, os quais não a amedrontavam a ponto de fazê-la se esquivar.

Elise era uma ávida escritora. Uma apaixonada pela escrita livre. Uma jovem de 20 anos, branca como uma nuvem, cabelos longos e encaracolados, escuros. Magra e de estatura mediana. Franzina.

Todos os dias, naquele mesmo horário, por volta do meio dia, sob sol ou chuva, ela saía. Andava dois quarteirões inteiros em direção aos correios para postar um envelope branco médio numa das caixas que ficava bem em frente ao prédio. Era um movimento quase obrigatório, metódico, rotineiro. Aquela caixa dos correios provavelmente esperava todos os dias a sua carta cair-lhe, bem como, inconscientemente, deviam esperar todas as pessoas pelas quais ela passava todos os dias. E Elise as cumprimentava com um doce sorriso no rosto. Um rápido cumprimento, pois havia pressa em destinar suas cartas.

Ela escrevia muitas cartas. Cartas com remetente e destinatário. Cartas que aquele envelope branco acarinhava ao guardá-las.

Eram cartas de amor, cartas de amizade, eram cartas diversas. E ela sabia tão bem usar as palavras. Ela sabia tão bem externar o que vinha de si. Ela se transformava em palavras pra os que a liam. E os que a liam tinham a ideia exata de quem era aquela menina escritora. E o que ela trazia dentro de si. Os seus sentires...

Papel, caneta e sentimentos. Juntos, resultando nas cartas mais verdadeiras que se podia ler. Os manuscritos mais graciosos. Que a tecnologia não ofuscou.

Numa certa sexta feira, por volta do meio dia, Elise atravessara aqueles dois quarteirões que a levavam aos correios, como de costume. O sol havia aparecido imponente. Estava quente. Mais pessoas transitavam pelas ruas. As ruas estavam secas. As árvores, livres, ao vento. Elise levava mais de um envelope desta vez. Um médio, branco, outro pequeno azul claro.

Cumprimentou as pessoas timidamente, como sempre fazia, caminhou com passos mais rápidos. Parecia ter certa pressa. Parecia ansiosa.

Ao pôr-se de frente à caixa dos correios, para depositar as cartas, de uma só vez, foi surpreendida por um sonoro cumprimento bem próximo ao ouvido. Uma mão tocou-lhe o ombro direito. Um toque suave. Neste momento virou-se rapidamente, de modo que não percebeu que apenas uma das cartas fora depositada na caixa. A do envelope maior.

Gael era seu nome. O moço do cumprimento sonoro e do toque suave. O moço de barba por fazer e olhos amendoados. Um lindo moço.

Aquele que a fez nervosa e a dispersou.

Ficaram parados ali por alguns instantes. O suficiente para apenas concordarem que o tempo estava bom naquele dia. Elise mal sabia se portar em frente àquele moço. Ele a inquietava. Então o mais fácil era fugir. Deu uma desculpa qualquer para abreviar aquele momento e seguiu a passou rápidos de volta para casa.

Gael também havia ido depositar umas correspondências. Alguns documentos, nada de cartas. Foi quando notou que havia algo no chão. Um pequeno envelope azul claro.

De súbito, pegou o envelope entre as mãos e olhou ao redor na intenção de verificar se havia alguém ali perto. Não havia. O envelope estava aberto. Quem o deixou cair ali havia se esquecido de fechá-lo. Hesitou. Mas tirou a carta que havia dentro. Não se importou em saber o destinatário, mas o remetente.

Sim, era uma carta de Elise.

Logo a imagem dela lhe veio à lembrança.

Olhou para os lados, na intenção de ainda tornar a vê-la. Nem sinal.

Estava sozinho. Ele, aquele instante e aquela carta.

Caminhou um pouco até a praça mais próxima. Sentou-se. Hesitou mais uma vez. E mais uma.

Ler ou não ler?

Na dúvida, pôs-se a ler...

A carta começava com “meu querido...”, sem citar nome.

E seguia assim...

Meu querido,

É tão cedo pra esse meu sentir. Ainda não sei como devo chamá-lo, pois que ainda não sei medi-lo. Receio mostrar-lhe e encontrá-lo sem compartilhar do mesmo sentimento. Não o culparia. É tão cedo, de fato. Mas meus olhos já estão tão acostumados aos seus. Parece que você sempre esteve aqui. Parece que sempre estive esperando você chegar. E que cada dia só nascia depois que o seu cheiro se misturava ao meu. Mal nos tocamos e eu já imagino o gosto que têm os seus lábios. Devem ser tão doces. Devem ter o mesmo gosto bom que têm os melhores momentos da vida de uma pessoa. Eu passaria a vida inteira beijando-os. Ah, se não fosse essa minha timidez tão minha assim. E eu pudesse lhe falar do meu desejo, enfim. Só queria apenas dizer como me sinto quando você está por perto. Eu me sinto pequena demais pra tamanha euforia. A sua presença, mesmo que você nem sequer me note, como eu gostaria de ser notada, faz de mim a garota mais alegre de todo o espaço onde seus olhos possam alcançar. Acredite. Se isso tem nome, eu não sei, mas sei que acho que queria você pra mim, assim como se quer algo muito, muito bom.

Um beijo,

Elise.

Sentiu um misto de culpa por ter lido algo que não lhe pertencia, por estar fazendo algo que sabia ser errado, e encantamento, por ter lido palavras tão singelas e ternas. Tornou a ler a carta mais duas vezes. Sentiu-se tomado por aquelas palavras.

Quem seria aquele meu querido? Para quem ela destinava aquelas palavras? Aquele sentir...

Não sabia. Não saberia. Jamais poderia perguntar-lhe. Ela jamais o perdoaria por ler algo que não era seu.

E Gael desejou que fosse sua aquela carta. Que fossem pra ele aquelas palavras ritmadas, apaixonadas. Desejou que ele fosse aquele querido.

Um querido não identificado. Um sujeito enamorado e oculto.

Dobrou o envelope, guardou a carta no bolso da calça e pôs-se a caminhar de volta pra casa. Teve a impressão de estar ouvindo uma canção linda, a sua preferida. Aquele momento tinha um som especial.

Começou a chover de repente. A rua esvaziou-se. Continuou caminhando lentamente, sem preocupar-se com nada além da sua lembrança. Aquelas palavras iam sendo ouvidas lá de dentro da sua lembrança. Sopradas no seu ouvido. E Elise lhe aparecia linda, como num sonho. Ainda que ele não tivesse a vaga ideia de onde ela podia estar. Ainda que ela estivesse longe. Não importava, pois, para ele, ela estava bem ali, sob a chuva, no ritmo daquelas palavras, na magia daquele momento.

Lai Paiva