segunda-feira, 4 de julho de 2011

A senhorita Misunderstood e o DJ (por Gilberto Amendola)

Caio tem medo de sangue. Não podia ser médico. Caio tem medo de altura. Não podia ser bombeiro(nem piloto de avião).Caio nãoé bom com números. Não podia ser engenheiro.Caio tem escrúpulos. Não podia ser político. Caio não é engraçado. Não podia ser stand-up comedy. Caio virou DJ. E estava satisfeito com sua escolha profissional.

Aliás,o próprio Caio tinha pudores em chamar seu ofício de profissão. Era, digamos, uma diversão remunerada. Algo que ele havia aprendido sem esforço, meio bêbado
e pulando de festa em festa (quase como frequentar uma faculdade de jornalismo). Ser DJ desobrigava-o de crescer. Atrás das picapes, poderia esticar sua juventude até uns 40, 45, 50 anos.

Como DJ seu único compromisso era manter a pista acesa e, vez por outra, questionar-se sobre a apelação que era tocar uma sequência de The Strokes, Arctic
Monkeys e The Killers.“Sou o ‘Datena’ do Indie Rock’”, pensava.

Para aplacar sua angústia – e agradar uns dois ou três amigos ‘especialistas’,encaixava uma faixa obscura da PJ Harvey entre Mr. Brigtside e Flourescent Adolescent.
Esfriava a pista, mas dava uma dignidade à sua arte.

Caio gostava especialmente dos fins de noite. Naquela hora em que a pista ficava praticamente vazia – parcamente ocupada por zumbis desesperados. Gente que ainda ansiava por um beijo ou por um último ‘teco’ antes do dia romper o fino plástico da madrugada.

Nessa hora, escolhia músicas que só ele queria ouvir. Sem se importar se iria ‘funcionar’. Num sábado do último mês de abril, Caio tocou Misunderstood, do Wilco (uma das sua bandas favoritas). Sempre fechava os olhos e cantava ‘pra dentro’ os versos: “You know you're just a mama's boy/ Positively unemployed/So misunderstood/So misunderstood” (Você sabe que é simplesmente um filhinho da mamãe/ Positivamente desempregado/ Tão mal compreendido/ Tão mal compreendido).

Mas antes que a música atingisse a parte que, segundo Caio, havia sido baseada em sua própria vida,uma garota ruiva (cabelo curtinho, olhos que variavam entre o
Castanho claro e o verde e uma tatuagem de estrela no ombro) postou-se em frente ao toca disco. No momento em que o cantor (Jeff Tweedy) perguntou, pela segunda
vez consecutiva, “do you still love rock and roll?” (Você ainda ama o rock and roll?),ela atirou-se para cima da aparelhagem e arrancou o disco da picape. Mordeu
o vinil. Arrancou um belo pedaço e foi retirada, sem nenhuma delicadeza, pelos seguranças da casa.

Caio lamentou o disco perdido, mas,desde aquela noite, não conseguiu mais tirar a tal ruiva da cabeça.Tinha uma sensação de que ela poderia aparecer a qualquer momento – e protagonizar um novo ataque de fúria.Torcia por isso. Queria entender o que havia acontecido, que pavio ele havia acendido ao tocar aquela música antiga
do Wilco (e o que aquela música, que ele também amava, representava para ela). Talvez ele estivesse apaixonado por uma garota maluca (que tinha visto por cerca de 30
segundos, no máximo). Talvez.

Caio virou um DJ esquisito. Insistia em Misunderstood várias vezes na mesma noite (só que agora usando um CD Player).Nãodemoroutrêssemanasparaqueeleperdesseas
Noites de sábado –e fosse encostado nas terças-feiras.

Mesmo ‘positivamente desempregado’, Caio continuava satisfeito com sua profissão. E dedicava às noites de terça, que batizou de ‘Senhorita Misunderstood’, para aquela musa surreal.

Contra todos os prognósticos, a noite do Caio virou um sucesso.
Terça passada, quando ele tocou A MÚSICA, uma ruiva apareceu no meio da pista e mostrou, desafiadora, a língua roxa de vinho tinto (e o dedo médio da canhota). Caio apertou o ‘repeat’ do CD Player e foi pra pista...