quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Uns 30, 40 vagões de anos de distância

Perguntei ao homem sentado na estação de trem como se chegava a tal local. Humildemente, ele me passou a informação como se pedisse desculpas. "Não tem placa aqui, né? A gente desce perdido". Puxamos conversa mutuamente. O homem negro, de cabelos grisalhos, perguntou para onde eu ia. "São Paulo". Os olhos pequenos nostalgearam: morei lá. E quase como se não precisasse perguntar, ele completou: ali perto da estação Santa Cruz.

Encontrar um homem em uma estação de trem de Osasco, para quem eu justamente pedi informação, que morava perto de onde eu morava hoje era uma coincidência que não deveria surpreender. Mas surpreendeu. "Foi na década de 70, 80", os olhos se perderam na imensidão das palavras. "Eu andava de carrinho de rolimã na rua Loefgren”. E riu.

A Loef, apelido que lhe dei, é uma descida. É a descida que eu desço todo dia para chegar em casa. Imaginei o homem em versão miniatura descendo a rua toda pilotando o carrinho. Rindo. Difícil imaginar. A minha Loef é cheia de semáforos e carros desembestados.

Como moro numa travessa da Loefgren, falei o nome da minha rua, ele falou a dele e descobrimos que não fomos vizinhos por uns 30, 40 anos. Ele então me fez descobrir que onde eu moro hoje funcionava uma tecelaria, e que a lavanderia bem em frente ao meu prédio era da família de um tal de Marcos, que perdeu os movimentos acidentado em uma moto na rua debaixo. O homem se surpreendeu que a Lavanderia Mirassol ainda existisse. Depois, contou-me que na esquina em frente morava um tal de Rodolfo, homem grande (personalidade indefinida), “que nem sei se existe mais”, e os olhos se perderam de novo na imensidão.

“Tempos outros”, comentei, imaginando que a vizinhança toda deve ter se mobilizado com o acidente do Marcos, devaneando ainda que as crianças da rua deviam se reunir todas as tardes para brincar de rolimã. “Hoje eu não sei nem o nome dos meus vizinhos, não sei quem mora no apartamento do lado”, continuei.

O homem falou ainda um pouco mais, mas pouco, o calo no coração meio que pedindo arrego. Suspirou baixo bem umas três vezes enquanto conversávamos. O trem chegou, nos dispomos em frente a portas vizinhas, mas separadas por vagões distintos. “É, velhos tempos. Bons tempos” e entrou. O homem nunca mais vi. Me deixou com nostalgia de uma São Paulo que jamais conheci.

A Paulista do homem, dos 70, e a minha, recente.