sábado, 22 de outubro de 2011

"Turma da Mônica Velha" ou "Ensaio sobre as peculiaridades do Tempo na Rua do Limoeiro"


Toda criança que se preze tem teorias um tanto curiosas sobre o mundo que a cerca. Eu mesmo já fui criança (por conta de certos desvios comportamentais alguns insistem em afirmar categoricamente que ainda o sou) e também tinha minhas teses. Tinha total certeza, por exemplo, que havia alguma lei que obrigava os adultos a fumarem quando atingissem determinada idade (todos os adultos em minha casa fumavam). Além disso, sabe-se lá porque, estava certo que eu estava fadado a me casar com minha irmã gêmea quando atingisse os 18 anos (não, o incesto não é prática comum em minha família) e que meu sobrenome seria Monteiro e o dela Monteira.

Me lembrei disso porque, um dia desses, uma amiga minha me confidenciou um de seus segredos mais curiosos. Disse ela que, quando criança, se sentia a menina mais sortuda do mundo por ter "nascido criança", uma vez que as pessoas que a rodeavam, segundo seu imaginário, já tinham nascido tal e qual as conhecera, crianças, adultos ou idosos, o que fazia de sua avó uma desafortunada, que já nascera com rugas e sofrendo de artrose!

Os anos foram passando e minha sortuda amiga foi descobrindo que não era tão sortuda assim. Espinhas foram aparecendo, o corpo desenvolvendo e ela adolescendo... o tempo fez sua parte e ela descobriu que, afinal de contas, não ficaria eternamente estacionada em sua condição infantil: adolesceria, adulta seria e, com sorte, envelheceria sem artrose (mas provavelmente com rugas).

Se minha amiga foi sortuda por pouco tempo, o mesmo não se pode dizer dos habitantes da simpática Rua do Limoeiro. Por quase cinco décadas inteiras Mônica, Magali, Cascão e Cebolinha foram crianças de 5 anos (nunca menos e nunca mais, por mais que fizessem aniversário todo santo ano). Conforme a engenhosa imaginação de minha amiga concebia, os adultos sempre foram adultos e os animais jamais morriam, fossem eles caninos de aparência acentuadamente azulada ou paquidermes verdes estampando latas de molho de tomate.

Nossos heróis e heroínas iam muito bem até que Maurício (uma espécie de Deus deles) resolveu que eles deviam ser todos jovens descolados e modernos! O tempo, tão peculiar na Rua do Limoeiro, passou do nada e lá estava Cebola flertando com Mônica, agora uma periguete. Magali, claramente sofrendo de anorexia, passou a comer "um pouquinho de cada coisa", enquanto Cascão (ah, Cascão...) traiu a curiosa alcunha e passou a se banhar com regularidade espantosa. Os meus ídolos não eram mais os mesmos e as aparências me enganavam, sim!

Mas Maurício ainda não estava satisfeito e os jornais daquela fria manhã de Setembro estampavam na capa o seu mais cruel plano infalível: o tempo na Rua do Limoeiro, o último reduto de eternidade, iria passar pra valer! O jornal anunciava que eles iriam envelhecer em tempo real, ano a ano, aniversário a aniversário, tal e qual acontece com minha amiga!

Confesso que meu mundo caiu por alguma horas, quiçá por alguns dias. Meu rendimento no trabalho caiu sensivelmente, minhas notas desabaram na faculdade... ficava imaginando as coisas mais terríveis que poderia acontecer com eles: a historinha em que queda de cabelo do Cebolinha se acentuaria ao ponto dele ter que fazer transplante capilar, aquela em que Cascão se aposentaria por invalidez, o episódio em que Mônica daria bengaladas nos velhinhos do asilo porque eles escondiam sua dentadura e pixavam nas paredes “Mônica banguela”... até o desfecho óbvio: o último quadrinho! A morte! O último fim no canto inferior direito da página!

Mas o tempo fez seu trabalho de novo e eu fui me conformando com a ideia, tal qual alguns anos atrás minha querida amiga teve que se acostumar com a ideia de que era, afinal, mortal. Percebi que Maurício não estava sendo tão original assim, que tinham inventado a mortalidade muito antes dele e minha amiga até já sabia disso.

Bom, se até na Rua do Limoeiro o tempo insistiu em passar, o jeito é de vez em quando, tal qual na máquina do Franjinha, voltarmos no tempo para sermos crianças de novo... nem que for só um pouquinho!