sábado, 26 de novembro de 2011

Ainda sobre os desejos e as viagens


Acabo de chegar de uma viagem que seria muito inusitada, se não houvesse outras, igualmente extemporâneas, que a precederam. De acaso em acaso, eu fui a São Paulo porque queria ver Fernanda Montenegro no palco interpretando Simone de Beauvoir, em Viver sem tempos mortos, assim como, um dia, fui lá também, junto com uma amiga, só para assistir a uma peça teatral, não importava qual, e calhou que foi Quem tem medo de Virginia Woolf, com Marieta Severo e Marco Nanini, numa interpretação de Nanini que me  impressiona até hoje. Também fui agora para ver Em nome dos artistas, exposição de arte contemporânea, que está no Pavilhão da Bienal. 


Já parti da gélida Paris, sozinha, para Bruxelas, tendo como única certeza de que assistiria ao show de Bob Dylan, porque encasquetei que nunca mais estaria tão próxima dessa oportunidade. E também fui a Madri, sem um tostão no bolso, além do suficiente para comer mal e me embriagar no bar do hotel, unicamente para ver O jardim das delícias, de Bosch, porque minha cultura parca não me deixava saber que a poucos metros estaria também Guernica, de Picasso. E em mais algumas quadras, As meninas, de Velazquez.  E por muito tempo, eu disse, e ainda gosto de dizer, que só queria ir a Paris para andar nos corredores do Colégio da França, onde Barthes havia lecionado seus famosos cursos e proferido Aula, o texto que, sem dúvida, marcou toda a minha trajetória acadêmica.


Comigo sempre foi assim, vivendo de urgências que parecem não ter fim e de desejos que ora iluminam ora obscurecem meus dias. Às vezes de modo leve, às vezes abalada, eu penso que poderia desejar menos. Ser mais focada, seria o termo ideal. Porém, na verdade, eu tenho muito pouco apreço por quem não deseja, como se, adulta, eu continuasse insistindo em preencher as lacunas que ficaram para trás e que, certamente, existirão mais à frente.


Num tempo em que tantos proclamam seus anseios, espanto-me como se tem cada vez menos desejado o saber, o simples saber, aquele que não vai trazer nenhuma vantagem a não ser o prazer. E se eu insisto em construir meus dias nem que seja com pequenos intervalos de fruição, é porque acredito que não podemos naturalizar a vida, estabelecendo  modelos àquilo que, como diz Fernanda-Simone, é trespassado tantas vezes pelas leis do acaso. Não quero me entregar à lógica do cotidiano que tantas vezes nos embrutece. Amar os livros, os filmes, os lugares, os artistas, os eteceteras, é o meu modo de me aproximar  de mim, de trazer à tona as minhas emoções. Uma forma de fugir das loucuras e dos desencantos do mundo.


Por isso, fui, embora só para chegar até lá tenha viajado 10 horas de ônibus, esperado 7 horas no aeroporto, mais 2h30 no avião, além de 2h entre ônibus, metrô e taxi para chegar ao meu destino. Nada é natural. Menos ainda a força poderosa que move Fernanda Montenegro, transvestida de Simone de Beauvoir, por uma hora, num palco despido de tudo, quase à sombra.