sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Quando não sou eu o cara na jaula dos leões

(por Gilberto Amendola)

Parece tão fácil quando não é comigo, quando não sou eu o cara que vai lotar o cinzeiro com bitucas tristes e pedir a conta minutos antes do simpático garçom passar avisando que a cozinha, infelizmente, "vai fechar."

Parece tão natural quando não sou eu o cara sem saber o que fazer com as mãos – o cara sem saber o que dizer quando ela, enfim, abrir seus olhos verdes como quem exibe um Royal Straight Flush numa mesa de pôquer.

Parece tão simples quando não sou eu o cara parado na plataforma – seguindo os vagões com a cabeça em zigue-zague. Ou ainda quando não sou eu o cara vendo ela relaxar os ombros no fundo da sala de embarque (o mesmo cara que, depois, vai ficar olhando para o céu e tentando adivinhar em que avião ela está).

Parece tão civilizado quando não sou eu o cara que finge não sentir o chão se abrir em alçapão ao vê-la passar feliz com o seu novo e brilhante amor. É tão ‘primeiro mundo’ quando não sou eu o cara mudando de calçada ou se escondendo atrás da barraquinha de pastel.

Parece tão matemático quando não sou eu o cara ouvindo a mesma música o dia inteiro, quando não sou eu o cara fazendo Air Guitar no quarto – e iludindo-se com uma plateia de carrinhos de ferro e Playmobil.

Parece tão razoável quando não sou eu o cara sozinho no cinema – afogado num saquinho de pipoca e esperando uma mensagem salva-vidas vibrar no celular. É tão melhor quando não sou eu o cara disfarçando o choro na derradeira cena de Blue Valentine.

Parece tão ‘de bom tom’ quando não sou eu o cara dentro do táxi pedindo para o motorista dar voltas pela Vila Madalena até uma angústia antiga encontrar um canto para descansar em paz.

Parece tão leve quando não sou eu o cara com a cara enfiada no jornal do dia, procurando, nos classificados, alguém que tenha paciência para ouvir a íntegra das minhas desventuras semanais.

Parece tão ‘cinema francês’ quando não sou eu o cara com a cabeça grudada no vidro do ônibus – pensando, repassando e recriando aquela chance, aquele deixa, aquela rixa, aquele adeus.

Parece tão empírico quando não sou eu o cara pondo fogo no mundo, bagunçando o coreto e usando artilharia antiaérea para chamar a atenção dela.

Parece tão bonito quando não sou eu o cara travado de gin me fingindo de Leonard Cohen tupiniquim. Tão, mas tão mais digno, quando não sou eu o cara trançando as pernas na Rua Augusta e procurando as chaves do apartamento no bolso da calça. É tão ‘fofo’ quando não sou eu o cara com o chaveiro do Snoopy e a camiseta do Charlie Brown.

Parece tão natural quando não sou eu o cara que não consegue tirar o rosto dela do primeiro plano da memória. Tão concreto quando não sou eu o cara tentando medir as palavras com a régua azul da solidão.

Parece tão engraçado quando não sou eu o cara protagonizando o próximo tropeço público, quando não sou eu o cara prestes a receber a torta de creme no rosto, quando não sou eu o cara na mira do atirador de facas ou preso na jaula dos leões banguelas. Parece tão hilário quando não sou eu o cara usando o nariz vermelho no centro do picadeiro. Tão incrível quando não sou eu o cara tomando porrada – e com a alma roxa de vergonha.

Parece tão humano quando não sou eu o cara sentindo esse frio polar na espinha. Parece tão chique quando não sou eu o cara que já não tem mais vinte anos, mas ainda insiste em usar xadrez. Tão lúdico quando não sou eu o cara que sobrou com a vassoura na mão no fim da festa.

Parece tão inteligente quando não sou eu o cara escrevendo poemas pra ela.

Porque quando é comigo...