terça-feira, 22 de novembro de 2011

Um relato constrangedor de um estudante em fim de carreira

Tenho pesquisado muito nestas últimas semanas.

É meu último semestre na faculdade e todo o conhecimento produzido até hoje pela humanidade parece querer vir ao meu encontro. Depois de anos e anos bebendo da fonte de saber de mestres da sabedoria ocidental como Marx, Weber, Freud e Foucault, chego agora ao último suspiro, aos últimos dias nesta caminhada rumo à fina flor da erudição... o que faz de minha recente biografia um mar de tédio sem fim.

E no meio de tanto labor, de tanto sacrifício intelectual, de tantos livros suplicando com toda aquela lascívia que lhes é peculiar "abra-me", "leia-me", "devora-me", no meio de toda esta provação, enfim veio a recompensa ao aguerrido guerreiro: "Como fazer uma cara sensual usando apenas a imaginação"!

Ahh...agora sim! - pensei eu quando vi o folheto entre os livros - para que preciso de tanta filosofia se conseguir fazer uma cara sensual?!

O folheto, no entanto, não era nada animador. Imaginação nunca foi o meu forte e o primeiro passo era justamente "imaginar"...imaginar que havia um sol (o folheto falava em um "sol bruxuleante", mas eu não sabia o que era isso, então tentei imaginar um sol normal mesmo)...numa dessas eu já nem lembrava mais de Marx, de Weber e muito menos de Foucault, então peguei um espelho e me coloquei a treinar freneticamente... treinei... treinei como se não houvesse amanhã, treinei como se minha vida dependesse disso.

Ao final de algumas horas já conseguia fazer uma cara mais ou menos convincente...bom, não estava propriamente sensual, ou melhor, não estava nada sensual... parecia mais um míope tentando ler alguma coisa do que propriamente alguém incomodado com um sol "bruxuleante"... mas vamos lá, esse era meu novo projeto de vida e eu não ia desistir tão fácil! Passei ao passo 2!

Ora! Este me parecia mais difícil que o primeiro! Eu deveria manter a cara de míope, ou melhor, de alguém incomodado com a luz de um sol bruxuleante, e pronunciar a singela palavra "salame". Aquilo estava começando a ficar estranho, mas não de uma estranheza qualquer, era de uma estranheza constrangedora, de uma estranheza que quase me fez desistir e voltar para aqueles livros empoeirados e enfadonhos! Mas não!

À guisa de me manter protegido contra vizinhos um pouco mais curiosos e maledicentes, cerrei todas as janelas e cortinas da casa. Voltei ao folheto! O maldito dizia que eu finalmente chegaria ao meu objetivo se pronunciasse a nada sensual palavra "salame" interrompendo melindrosamente a mesma na segunda sílaba, momento crucial em que a lingua chegaria aos céus, ao palato, ao famigerado céu da boca!

Meu coração aumentou o batimento ante a perspectiva de finalmente chegar ao clímax, ante a perspectiva de mostrar para quem quisesse ver, que eu não era apenas um estudante enfadonho em fim de carreira! Eu estava próximo de mostrar à gentalha que eu também podia fazer uma cara sensual! Ah, se podia!

Não, não podia!

Ao final de dezenas ou, quiçá, centenas de tentativas, o mais próximo que eu cheguei de sensualidade foi um misto de náusea e prisão de ventre, o que só me fazia ter cada vez mais pena do meu espelho. Minha lingua já estava com caimbras de tanto falar "salame" (melhor seria falar abobrinha) e eu só tinha vontade de me vingar do desditoso ser que teve a brilhante ideia de fazer aquele folheto! Aquele maldito folheto!

Não! Não! Não! A quem eu queria enganar? De que me adiantaria uma cara sensual? Foi então que percebi que minha sensualidade era outra... foi então que voltei pra eles! E eles estavam ali, como os havia deixado, estavam ME esperando, estivesse eu com cara sensual ou não! Esperando este estudante em fim de carreira para quem tudo, TUDO neste momento, parece mais atraente e interesante do que fixar as nádegas na cadeira e se debruçar sobre seus livros empoeirados!

Oh, meus queridos livros! Tudo isso um dia vai passar e vou voltar a vê-los novamente como amigos e não como adversários!