segunda-feira, 26 de março de 2012

A longa noite de As brasas, de Sándor Márai


Quem sobrevive a alguém comete uma traição. ... sobreviver a uma pessoa que amamos tanto, a ponto de nos dispormos a matar por ela, à qual éramos tão ligados que por pouco não morremos, é um dos crimes mais misteriosos e inqualificáveis da vida (General Enrik).

Sandor Márái é húngaro e autor de um dos livros que definitivamente entrou na minha lista de preferidos. Antes de um amigo indicar, eu jamais ouvira falar dele. Apesar de alguns dos seus livros serem publicados pela Companhia das Letras, creio que ele é ainda pouco conhecido no Brasil, o que é uma pena. Para mim, a narrativa de Márái teve a força de um turbilhão semelhante ao que sinto quando leio Kafka.

Se Ulisses se passa em um único dia, quase todo o livro As brasas se passa em uma única noite. Nesta noite, dois amigos de infância – inseparáveis até que uma mulher se interponha entre eles – acertam contas com o passado. Entretanto esse acerto nada é mais do que o monólogo daquele que julga ter sido traído. Como o ouvinte de Grande Sertão: Veredas, o amigo Konrad apenas escuta o general Enrik desfiar não suas dúvidas, mas suas certezas descobertas em exatos “quarenta e um anos. E quarenta e três dias” de espera. A noite é, pois, o passado e o presente. A noite são estes quarenta e um anos, pois, nestes, tudo o que aconteceu tinha como sombra o silêncio. O silêncio tudo destruiu. E agora tudo que resta é como um museu onde se conservam mágoas, paixões, amores; tudo corroído pelo tempo. Talvez por isso caiba apenas uma voz nessa longa noite em que o silêncio vira palavra. O silêncio é aqui também uma forma de traição que devora a todos: Kriztina que definha, Konrad que anda errante pelo mundo, o general que espera a sua volta.

De certo modo, são todos fantasmas; e Nini, a mulher sobrevivente nesta histoória, é o símbolo dessa fantasmagoria. Por isso, não há porvir; apenas o passado. Os sobreviventes, nas palavras do general, traíram aquela que era a única razão de vida. E por isso são como mortos. O mais poderoso nesta narrativa é a exatidão do duelo: o embate é entre a mudez e a voz. Não há passividade naquele que cala; sua respiração, suas poucas frases curtas, sua presença; nada deixa dúvidas de que ambos travam uma luta na qual já sabem que são ambos perdedores.

Quando se é leitora, um livro como este é a tradução perfeita da felicidade; não aquela felicidade que alivia, mas aquela que abisma.