terça-feira, 27 de março de 2012

Um teto todo seu


"É necessário ter quinhentas libras por ano e um quarto com fechadura na porta se vocês quiserem escrever ficção ou poesia."
Virginia Woolf


Há alguns anos li “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf, e essa leitura me marcou muito. No ensaio, que foi escrito inicialmente para uma palestra a jovens universitárias, a autora inglesa traça um panorama da relação entre a mulher e a ficção ao longo da história. Para ela, se tivesse existido uma irmã de Shakespeare tão talentosa quanto ele, a pobre mulher certamente não teria nenhum êxito literário e seria deveras muito infeliz, pois às mulheres do século XVI só cabia o papel de trabalhadoras domésticas subordinadas, quase sempre analfabetas e desprovidas de voz. Woolf acredita que as condições precárias das mulheres é o motivo crucial de termos na literatura poucas escritoras. O quadro só começa a mudar e as mulheres possuem algum lugar no mundo das letras com a conquista do direito de ter a própria renda e um teto todo seu. Pois é necessário, segundo a autora, possuir um espaço - ao mesmo tempo físico e metafórico - para que a escrita aflore. Trata-se de um belíssimo texto de uma grande mulher, que acima de "feminismos", propõe que a boa literatura é feita por seres andróginos.
Compartilho o trecho final do texto:
“(...) Minha própria sugestão é um pouco fantástica, admito; prefiro, portanto, colocá-la em forma de ficção. Disse-lhes, no transcorrer deste ensaio, que Shakespeare teve uma irmã; mas não procurem por ela na vida do poeta escrita por Sir Sidney Lee. Ela morreu jovem - ai de nós! Não escreveu uma só palavra. Ela está enterrada onde os ônibus param agora, em frente ao Elephant and Castle. Pois bem, minha crença é que essa poetisa que nunca escreveu uma palavra e que foi enterrada numa encruzilhada ainda vive. Ela vive em vocês e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque estão lavando a louça e pondo os filhos para dormir. Mas ela vive; pois os grandes poetas nunca morrem, são presenças contínuas, precisam apenas da oportunidade de andarem entre nós em carne e osso. Essa oportunidade, segundo penso, começa agora a ficar a seu alcance conferir-lhe. Pois minha crença é que, se vivermos aproximadamente mais um século - e estou falando na vida comum que é a vida real, e não nas vidinhas à parte que vivemos individualmente - e tivermos, cada uma, quinhentas libras por ano e o próprio quarto; se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco da sala de estar comum e virmos os seres humanos nem sempre em sua relação uns com os outros, mas em relação à realidade, e também o céu e as árvores ou o que quer que seja, como são; se olharmos mais além do espectro de Milton, pois nenhum ser humano deve tapar o horizonte, se encararmos o fato de que não há nenhum braço em que nos apoiarmos, mas que seguimos sozinhas e que nossa relação é para com o mundo da realidade e não apenas para com o mundo dos homens e das mulheres, então chegará a oportunidade, e o poeta morto que foi a irmã de Shakespeare assumirá o corpo que com tanta freqüência deitou por terra. Extraindo sua vida das vidas das desconhecidas que foram suas precursoras, como antes fez seu irmão, ela nascerá. Quanto a ela chegar sem essa preparação, sem esse esforço de nossa parte, sem essa determinação de que, quando nascer novamente, ela achará possível viver e escrever sua poesia, isso não podemos esperar, pois isso seria impossível. Mas afirmo que ela viria se trabalhássemos por ela, e que trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.”
Virginia Woolf, outubro de 1928.
***

Março é considerado o "mês da mulher", comemoração que considero deveras muito piegas. Em meio a tantas palavras doces sobre as mulheres, as ideias de Woolf são um sopro de lucidez para nós pobres primas tortas da irmã de Shakespeare.

(Consultado: Woolf, Virginia. Um teto todo seu. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985)