quinta-feira, 3 de maio de 2012

Era uma vez uma pinta cabeluda

Era uma vez uma pinta cabeluda. Uma pinta dessas feias, de bruxa, que ninguém gosta. Uma pinta de 3 centímetros no máximo, mas feia o suficiente para precisar ser escondida. Por sorte nasceu perto da orelha,  um lugar que o cabelo comprido tapava e quase ninguém sabia que ela existia, só a dona e mais algumas pessoas observadoras. A dona era eu.

Com o tempo eu nem ligava muito, mas vira e mexe olhava para aquela pinta e pensava: um dia tiro você. Chegou o dia. Uma alergia inesperada me levou ao dermatologista e lá aproveitei para analisar todas as pintas do corpo. Sim, eu sou uma pessoa de pintas. Nenhuma oferecia risco, mas se eu quisesse tirar por estética era bem simples. Topei a briga. Não conhecia a médica, escolhi no catálogo do plano, entre vários outros médicos, uma inclusive de frente pra essa, mas resolvi arriscar. E a médica me pareceu bem simpática.

Dia da mini-cirurgia, um zilhão de pessoas aguardando.  Já comecei a ficar tensa, achando que ela estaria cansada. Espero, espero, espero. Será que sempre foi assim? Você marca as seis e é atendido as oito? Vai fazer isso em um restaurante pra você ver. Por fim chamaram meu nome. Entrei e encontrei a médica de calça de ginástica e crocks. Naquele momento eu quis sumir dali. Não sou do tipo que julga roupa alheia, mas daí trabalhar de crocks, velho? Total esculacho.  Comentei com ela que também usava crocks, mas em casa, para fazer faxina. E ri. De nervoso.

Conversando mais percebi que ela era carioca. Nada contra os cariocas, mas pensa bem, o que uma médica de uma das maiores cidades do país veio cheirar aqui  no interior de Minas? No mínimo matou alguém por lá. Comentei com minha mãe que queria desistir, mas minha mãe, rainha dos maus conselhos, me encorajou a continuar, já que estava ali, aquela coisa.

A médica chamou a enfermeira para ajudar e aprender  e, como se não bastasse todos os sinais que aquilo era uma cilada, descobri que era o primeiro dia da moça. E lá se foi a minha pinta. E lá se foi as tripas da enfermeira nova, que passou durante o procedimento.  

Seis meses depois, no lugar da pinta uma cicatriz. Três vezes o tamanho da antiga pinta. Meu irmão diz que um cirurgião plástico choraria se olhasse minha cicatriz. Minha amiga professora infantil diz que parece que eu fui atingida por um balanço do parquinho.  Minha mãe acha que não tem nada demais, “o cabelo tampa”. Voltei na médica, só pra mostrar o estrago que ela fez no meu rosto. Na saída a médica do consultório da frente apareceu, nem lembro o rosto, só reparei que estava super bem vestida e fui descendo os olhos para os pés. Um salto altíssimo. Droga.