quarta-feira, 2 de maio de 2012

A síndrome do sono ao volante

Prometo que esta é a última crônica que eu escrevo sobre as minhas aventuras no trânsito. Até porque, nem eu aguento mais falar sobre isso. Se não me engano, contando com essa, são três crônicas consecutivas. Mês que vem, aqui no blog das 30 Pessoas, eu posso até discursar sobre o aspecto e as funções celulares das mitocôndrias, mas não vou falar de colisões no trânsito, maus condutores ou ultrapassagens arriscadas.
É inegável que os acidentes de trânsito no Rio diminuíram muito ultimamente devido à Lei Seca, mas existe um problema tão grande quanto, porém muito mais difícil de ser combatido: o sono repentino ao volante. Eu não sei o que acontece comigo, mas às vezes, sobretudo de madrugada, bate um sono incontrolável. Isso também ocorre quando estou em terra firme, mas a 100 km/h, mexendo os dois pés e as duas mãos, é difícil de conceber um fenômeno desse tipo. Felizmente essas crises têm sido cada vez menos frequentes. Acho que com o tempo eu fiquei mais experiente no assunto. Já nos primeiros sintomas eu paro o carro no primeiro posto e viro um Red Bull. O energético não resolve por completo, mas ajuda bastante. O problema é quando isso acontece e você não tem nenhum lugar pra parar. Uma solução possível, porém perigosa, é estacionar o carro no acostamento e tirar um cochilo. Uma outra solução, bem menos eficaz que o Red Bull, é ficar se estapeando dentro do carro ao som de punk rock no último volume e dar uns berros aleatórios. É bom lembrar que a síndrome do sono ao volante é potencializada pelo álcool. Ou seja, mais pontos para a Lei Seca, que conseguiu, mesmo que de forma indireta, combater este mal.

(espaço publicitário)
O meu site novo está quase pronto e vou fazer um show voz e violão de lançamento pela Twitcam. Nunca fiz isso antes e estou animado com a ideia. Talvez em maio, talvez em junho, não sei ainda ao certo. A propósito, ponha um pouco de lado o disco da sua banda favorita e escute a minha música nova, O Redator Publicitário: http://www.youtube.com/watch?v=VNhhwV1FSiY

Pelo incrível que pareça, a única vez que eu bati com o carro sob os efeitos da síndrome, eu não havia ingerido uma gota de álcool. Sob os efeitos da síndrome, com ou sem álcool, eu já quase bati diversas vezes. Me lembro bem de uma ocasião saindo de um túnel. Tirei um minicochilo e quando acordei, estava a centímetros da parede. Fiquei tão assustado que o sono foi embora imediatamente. Mas voltemos à batida. Isso já tem uns 10 anos, senão mais. Voltava da Barra da Tijuca e mesmo antes de passar por São Conrado eu já tinha parado num posto de gasolina pra dar uma acordada. A síndrome atuava a pleno vapor. A batida começou a se desenhar ali porque em vez de tomar o Red Bull, sorvi um café. Café e nada, em se tratando da síndrome, são praticamente a mesma coisa.
Os especialistas dizem que a grande maioria dos acidentes de trânsito ocorrem quando já estamos bem próximos de casa, que é quando relaxamos e pensamos que mais nada pode acontecer. E comigo, naquela factídia noite voltando da Barra, não foi diferente. Acordei com um fortíssimo barulho. Olhei ao redor e vi que o meu carro estava dentro de uma obra da Comlurb. A obra não era na calçada. Era na pista da direita. Aliás, essas obras eram muito comuns na zona sul. Bastava mudar de pista e pronto. Lembro que além dos tapumes, tinham umas luzes toscas improvisadas, que eram visíveis de longe. Mas com os olhos fechados, nem a luz da árvore da Lagoa poderia ser vista. Tombei todos os tapumes e todas as luzes toscas e estava literalmente dentro da obra. Tentei acelerar o carro e nada. Ele rosnava mas não saia do lugar. Enquanto eu pensava ainda no que fazer, um carro com uns quatro jovens encostou do meu lado, riram da minha cara, fizeram piadas e perguntaram como havia acontecido aquilo. Não respondi. Abri a porta e vi umas quinhentas ferragens debaixo do carro. Coloquei o macaco na altura máxima, mas não foi suficiente. Precisava de um macaco bem mais alto. Não queria ligar para nenhum amigo ou familiar. Até porque, eles não poderiam me ajudar com seus macaquinhos inoperantes. Voltei para o carro e fiquei estático por cerca de 10 minutos, talvez tomando coragem para ligar para um reboque. Pouco depois, um homem bate no vidro. Ele mostra o seu carro parado logo atrás. Era um furgão gigantesco. Perguntou se eu precisava de alguma ajuda. “Deixa eu dar uma olhada no seu macaco”, respondi.
O macaco dele era quatro vezes o meu. Deixamos o carro quase que num ângulo de 90 graus e conseguimos, com algum esforço, retirar todas as ferragens. Ofereci algum dinheiro pela ajuda, mas o cara não aceitou. A parte dianteira do meu carro estava em frangalhos, mas pelo menos eu estava inteiro. Fiquei com pena dos trabalhadores da prefeitura. Teriam um trabalho redobrado na manhã do dia seguinte.