sexta-feira, 1 de junho de 2012

_fim

nossa relação já não estava boa há muito tempo e acabou, de fato. demorou um pouco pra me acostumar a acordar e perceber que não estávamos mais juntos. acontece que depois de algum tempo tive a certeza que não, não dava mesmo para continuar. a cada dia ficávamos mais distantes e vi que apenas insistíamos em algo sem futuro. não conseguia tirar isso da minha cabeça.

no começo era tudo curtição. constantes passeios, teatro, livraria, cinema, shows, bares, restaurantes, era como se eu necessitasse de sua presença, que me proporcionava uma sensação de segurança sem par. só de imaginar sua ausência, eu já me sentia sem direção, não enxergava um palmo à minha frente.

acontece que o que era pra ser uma relação fugaz tornou-se cada vez mais íntima. eu sabia que não podíamos dormir juntos, mas às vezes esquecia que isso era uma atitude 'errada' e quando via, o despertador do celular anunciava que já era o dia seguinte e você estava ali, no meu travesseiro. não conseguíamos ficar distantes e desde a hora em que acordava até o momento de dormir, eu só tinha a mesma coisa na cabeça, enfim, uma dependência que, aos poucos, foi tomando conta da minha vida a ponto de chegar a pensar que seria pra sempre.

lógico, como toda a relação havia aquele período de indiferença. às vezes eu enjoava e trocava por outros só pra não cair na rotina. acabei até me encantando com outros mais bonitos, feios, mais finos, mais velhos ou novos, mais atraentes e charmosos. mas não adiantava, era como um imã ou um bumerangue, que quanto mais longe eu arremessava, com mais força voltava.

obviamente não foi fácil lidar com o fim e tive de procurar ajuda médica, tanto antes do término como depois. passei a tomar remédios fortes que me faziam dormir. assim que tudo acabou, apesar de sentir um alívio, fiquei uns cinco dias em casa.

é... pra quem nunca usou óculos pode parecer besteira, mas para mim, que os tive comigo durante vinte anos, sei bem do que falo. acontece que foi preciso dar um fim neles e agora, que rompemos de vez, sei que fiz a escolha certa e tenho sido uma pessoa mais feliz desde o dia 9 de junho de 2009, quando fiz a cirurgia para correção de miopia e astigmatismo.

agora eu não dependo mais deles e se antes eu via desfocado, sei que os graus que me impediam de enxergar são apenas números sem importância que desapareceram com a aplicação de um laser, assim como espero que aconteça com algumas lembranças cujas duas lentes de vidro tanto presenciaram.

e apesar do charme que - dizem - os óculos me proporcionavam, não há mais tesão da minha parte por eles e um relacionamento entre nós não daria mais certo mesmo. por isso, posso dizer, mesmo sabendo que um dia voltarei a usá-los e cobrir minhas vistas nuas:

óculos,

eu não preciso mais de vocês.

[texto publicado originalmente em 2009, agora repaginado e atualizado]