domingo, 24 de junho de 2012

Vergonha

Então é isso. São exatamente...o quê? Uma e quarenta? Uma e quarenta e dois da manhã e você entra aqui, cheia de verdade, e acha que é assim? Que eu vou só ouvir, baixar a cabeça e acatar tudo que você disser? Nããão. Não é assim que funciona, não. Eu sei que você gosta de um drama. De um teatro. Você devia ter sido atriz, minha filha. É. Novela da globo ia vir com seu nome em destaque. Pior, novela mexicana. Com aquele monte de grito e e e aquele negócio que passam no cabelo. Saquê. Não. Laquê. Laquê. Muito.Mas aqui não é assim. Aqui você chega e a gente conversa. E você me ouve bem atentamente, pra não repetir nada errado depois. É! Pensa que eu não sei? Tudo que eu te conto vai parar no ouvido das suas amigas. Aliás, tudo que a gente faz vai parar nas conversas de vocês. É. Não existe mais esse negócio de monogamia, não. Acabou. Falar em monogamia em pleno 2012 é que é sinal do fim do mundo. Apocalipse. A gente se casa com a mulher, as amigas, a mãe, a irmã, as primas... Eu já trabalhei com mulher, sei como é. Vocês falam tudo. Tamanho. Direção. Tempo. Inclinações físicas e políticas. Morria de medo de sugerir uma coisa mais diferente pra você e na próxima reunião de família todo mundo me olhar feio. Monstro. Tarado. Seu pai me expulsaria de lá, avisando pra nunca mais voltar. Certeza.

Mas, ó. Lembra quando começamos a namorar? Você tava cheia de bagagem. E nem me refiro à tua bunda não. Que, aliás, ainda dá um caldo. Mas tou me desviando. Bagagem. Se eu falasse tal coisa ou se reclamasse, você dizia que tinha sofrido muito por causa disso, já. Chorava e chorava. Não me atendia mais. Porque Raulzinho tinha te largado por causa do seu braço. E eu lá queria saber de Raulzinho ou de Huguinho, Zezinho e Luisinho? Faça-me o favor! Queria era teus braços enrolados em mim e você sabia disso! Que saco. Não tinha nada que aguentar trauma que ex-namorado tinha botado em você, mas vamos lá. Aguentei tudo firme e forte. Conversando. Sendo paciente. Levando flor pra você. Levando porta na cara. Levando esculacho dos amigos, que mandavam eu partir pra outra. Mas não. Aguentava firme e forte. Te disse. Queria ficar contigo. Esperava passar todos os chiliques. E não me olha assim! Chilique, sim, senhora. Você me pegava pra cristo e ficava contando de como um tinha te largado no bailinho do seu vizinho, de como o outro te comeu e jogou fora. E eu lá, todo compreensivo e psicólogo, mas no fundo pensando que ia virar teu amigo e só. Aguentei tudo isso. Você lembra, né? Você lembra.

Nem vou falar das vezes que fiquei contigo de madrugada, curtindo cólica. É muita graça. Nasci homem e sofro com cólica. Sempre esquentei água pra bolsa térmica. Precisei ter um arsenal de travesseiros aqui em casa porque não tinha jeito de você dormir sem sentir dor. Segurei a onda quando você quis mudar de emprego. Comprei seriguela - seriguela, veja só! - de madrugada quando você achou que tava grávida. E nem tava. Fiquei do teu lado durante a Grande Briga de 2009 com a minha mãe. Aquilo foi barra. Mas não arredei pé. Sempre, sempre do seu lado. 

Em suma: eu te amo. Te amo desde o primeiro beijo. Não, um pouco depois. Mas, pera, não faz essa cara. Eu te amo. A gente tá junto há...que dia é hoje? Olha. Semana que vem faz sete anos. (Cacete. Tudo isso?) A gente passou por muita coisa junto. Eu encaro qualquer problema do seu lado, você sabe. Com um sorriso no rosto.

E aí você vai jogar tudo isso fora só porque me pegou com sua prima?

Que vergonha, mulher. Que vergonha.