sábado, 28 de julho de 2012

A visita (última parte)

O gato continuo calado na dele e eu passei mais alguns minutos tentando decifrar aquele enigma. Distante de um socorro e de uma solução, pensei em voltar para o Brasil. Mas seria isso o correto? Uma visita inesperada e adereços jogados no meu cenário fizeram toda essa confusão e eu não me dei conta. Fiquei seguindo as rubricas dessa peça sem direção. Muita loucura para um hospício só. Será que isso foi alguma macumba que a Ramona fez? Não duvido nada, logo ela que se envolvia tanto com essas coisas. Pensei, de antemão, já que não conseguia entender aquilo tudo, em telefonar pra minha mãe para perguntar algumas coisas. Mas não, não posso envolvê-la nisso. Tenho que ir até o fim, como um cego. 

É noite e a pensão San José é um local agradável de se passar, não posso mentir. Mas, com todos esses problemas pra resolver, nem pude voltar a rever as redondezas. Estive aqui ano passado na época que conseguia ainda manter uma relação estável com a Ramona. Momentos inesquecíveis que de tão bons que ficaram tatuados no cérebro. E agora tudo acontecendo como num filme pausado por uma amiga cagona e, no aparecer do play na tela, a película avançada sem nada a se entender. Cenas adiantadas, o motivo talvez tenha sido as dopagens. A pipoca talvez estivesse com alguma coisa e eu não senti nada. Este está sendo um filme difícil. Não é como aqueles que quando você para pra assistir, já dá pra acompanhar e se emocionar com o final. Uma coisa é certa: isso que vem acontecendo comigo não é um roteiro de merda, dá pra assistir, mas... Será que ele vai me passar alguma moral? Será que terá os créditos? Eles talvez fossem um desfecho para essa pegadinha,muito bem produzida pelo visto, que estão fazendo comigo. 

Não tive medo de nada desde o começo e espero não ter daqui pra frente. Penso em bater uma punheta, mas a ocasião pede reflexão, e não gozo. Sou precoce e seria uma jogada rápida... Mas não, tenho que refletir. Como alguns dizem: os poucos neurônios do homem estão no pau. Não concordo. Todos os ponto erógenos até sim, mas os neurônios não, pelo menos não agora. Estou com todos na cabeça, lugar-comum e sem metáfora onde eles devem ficar. Estou preocupado com o meu futuro e não me desapego do passado. Passam, como numa apresentação de slides na minha frente, muitas imagens. Desconheço os próximos passos e resolvo não me mexer muito para não encontrar mais nada. Está tudo muito bem até agora. Nada melhor, como falaria a minha mãe se eu lhe telefonasse agora, como um dia após o outro. Virá! Solução não sei... O gato se mexe.

- Ainda acordado?  - indaga o gato.

- Não consegui dormir tentando resolver tudo isso. Você sabe de mais alguma coisa?

- Você deveria enterrar suas necessidades. Cobrir com areia. 

- Por que você está dizendo isso? Vai, responde! 

- Você não desconfiou tanto de mim? Achava que eu não falava... Não teve imaginação para entrar no meu mundo, mas acreditou em tudo isso que vem acontecendo com você. Eu tenho experiência de vida, você não.

- Isso eu sei, mas eu só queria entender isso tudo que tá acontecendo.

- Você acredita que nós gatos temos sete vidas?

- Não.

- Então, o seu problema é não ter problema.

- Só queria a solução.

- A morte é a única coisa para qual não há solução. Você tem que aprender a enterrar suas necessidades e acreditar menos. Vives muito no passado e não vives. Você reclamava de ter uma vida muito paradona e agora a cegonha lhe visitou. Trouxe de presente muitos problemas... Ramona morreu e Carmem também e, como acho que você deve saber, elas só tem direito a uma vida. Nada de reencarnação nessas horas e se tiver é pra uma futura melhora no caráter delas. Nada é em vão.

- Então isso é tudo mentira?

- Mentira diria que não. Pense, como se fosse, a visita do Papai Noel onde o presente é uma lição de vida. Mas isso não quer dizer que seja mentira. Foi uma visita, sim, mas domiciliar de médicos, lhe alertando pra você entender que sua morte também está próxima se você não parar pra viver sua vida sem visitar o passado.

(The end)