sexta-feira, 27 de julho de 2012

A visita (parte 23)


Aquela visão do moleton pareceu durar um dia inteiro (e não foi mesmo um dia inteiro?!). Lá do alto da torre gritei furiosamente para a mulher. Quando ela se virou, o vento jogou o cabelo sobre o seu rosto, encobrindo, mais uma vez, a verdade. Desci as escadas o mais rápido que pude, mas não consegui alcançá-la. Algo me dizia que era a Risa, aquela vadia maldita.

- ¡Carajo! ¡Puta madre! ¡Mierda! - Estava eu lá de frente para o Río de la Plata berrando palavrões que soam tão bem em castellano. O que, afinal, significava tudo isso? Sentei-me à margem do rio pensando na loucura que foi ter ido até Colonia del Sacramento para tentar dar sentido a uma narrativa cheia de lacunas e só encontrar elementos mais bizarros. Resolvi analisar friamente tudo que se passou desde que apareceu aquela carta de baralho rasgada embaixo do prato de comida. Todos os fatos pareciam teatralmente preparados e todas aquelas pessoas estranhas pareciam encenar para me enlouquecer. Fui manipulado, não há dúvida. Minha vida era uma ficção. E não era apenas uma pessoa envolvida nisso tudo. Não era apenas a Risa ou a Carmen. Muita gente junta, umas trinta pessoas, sei lá. Minha primeira decisão foi não aceitar mais nenhuma bebida ou comida que me oferecessem. Eu jejuaria, assim, poderia garantir a minha lucidez para analisar cada um dos fatos me aconteceram a fim de encontrar a relação entre eles. 

Voltei à pensão San Jose. Entrei novamente no quarto, e estava lá o gato preto dormindo preguiçosamente sobre a cama. Desta vez, estava calado, ao menos. Procurei meu caderno na mochila e quando fui fazer algumas anotações, encontrei entre as folhas do caderno um recorte da página 7 do Jornal da Tarde do dia 04 de julho, que não sei por que estava ali. Desdobrei a página e e estava um anúncio circulado: "Marcelo Antunes lava, passa, cozinha pra fora e traz a pessoa amada em três dias". No topo da página do jornal estava escrito em letra de forma: "Não sabe se descrever, mas gosta de escrever, não é?" e ao lado, uma citação: "Eu gosto de gostar" Marcel Duchamp. É muita charada para quem é uma piada como eu.

(e... continua?)