quarta-feira, 25 de julho de 2012

A visita (parte 22)

Depois do gato falante, fiquei pensando que animal me esperava diante da porta. Meio ressabiado, respirei fundo e dei alguns passos: era a senhora com cara de vó falando em um castellano rápido que eu havia perdido o café da manhã e que precisava fazer uma faxina no quarto, já que o horário do check-out tinha passado há algumas horas. Contra a minha vontade, disse que não precisava de faxina nenhuma e que ela me reservasse mais um dia por lá.
- Acepta tarjeta? – perguntei à senhora.
- No, solo en efectivo.
Porra! Já tinha me esquecido dessa mania escrota de não aceitarem cartão em lugar algum. Peguei alguns pesos que me restavam trocados na carteira e saí para comer alguma coisa. A senhora me fez indicação de bons lugares para almoçar naquele horário. Agradeci. Mas meu esforço de lembrar os nomes foi só para passar bem longe. Naquela altura do campeonato, depois de Ramona, Carmen, Mafia Russa, Risa, gato falante, eu só poderia contar comigo mesmo – não que isso valesse alguma coisa.
Segui a rua rumo à parte histórica da cidade, entrei em um restaurante e pedi um chivito. Como aquele lanche era bom. Bons tempos, falei em voz alta sem perceber. Depois, junto com a conta, a garçonete me entregou um bilhete.
- Merda! Será outro código? Será que esse chivito também estava bolado? Não aguento mais essa loucura toda.
Quando fui ler a mensagem me deparei com um pedaço de uma música do Belchior “No corcovado, quem abre os braços sou eu. Copacabana, essa semana, o mar sou eu”. Tudo bem que dizem que ele tá sumido no Uruguay, mas daí me mandarem um bilhetinho com música dele...Como ultimamente tudo tinha uma mensagem escondida, resolvi quebrar minha cabeça pra descobrir o que no fundo aquele bilhete dizia.
Conversando com alguns nativos em um portunhol escroto, aprendi que muitos chamam o Rio do Prata de mar. Perguntei também se não havia nenhuma estátua de Cristo por ali, já que eu me dizia muito religioso. Alguns senhores que estavam jogando cartas falaram que não sabiam, mas que quando queriam rezar, subiam no farol da cidade, porque olhar o “mar” lá de cima era como que fazer uma oração.
Fui até o farol, subi aquela escada de caracol que me dava mais vertigem que aquele maldito pudim e quando, enfim, cheguei ao topo, eis que vejo uma mulher de costas com um moleton idêntico ao que eu havia encontrado a lejos do Uruguay, bem lá no meu Brasil, de onde eu jamais deveria ter saído.

(continua no dia 26)