terça-feira, 24 de julho de 2012

A visita (parte 21)

- Aonde você pensa que vai?


Sinto todos os pelos do meu corpo arrepiarem ao ouvir essa pergunta. Do lugar mais improvável possível.

- Te fiz uma pergunta.

- Você é um gato.

- E você não é de todo ruim. Mas uma coisa de cada vez. 

- Você tá falando.

- E você não tá ouvindo. Presta atenção. Não é pra você sair daqui.

Seria mentira dizer que sentei na cama. O mais sincero é admitir que minhas pernas viraram gelatina e eu de repente me vi sentado. Encarando o gato preto.

- Putaquepariu. 

- A tua. Escuta, te acordei pra conversar com você. Pra que essa mão? Para! Me solta.

- Eu tô te sentindo. Você não é um sonho.

- Não. Eu sou seu pior pesadelo. hahaha. Desculpa. Faz tempo que não tenho ninguém pra conversar.

- Putaquepariu.

- Ah, meu saco castrado...você é devagar, né? Olha, presa muita atenção. Estella, Risa, Ramona, Carmem (ou é Carmen?), o cara estranho, a cigana...não dá pra você confiar em nenhum deles.

- E é pra confiar em você? 

As palavras saíram baixinho, como se eu não quisesse falar. Cacete, eu não queria! Aquilo é um gato! E um gato preto. Que sorte.

- Só se você quiser. Afinal de contas, o que você veio fazer no Uruguai? Duvido que tenha vindo encontrar a máfia russa.

- Não. Quero dizer, eu vim fugir dela. Aliás, vim atrás da igreja do Santíssimo Sacramento. E agora a Carmem tá morta. Mas ela é a cara da Ramona.

- Ah, é. Esqueci da velha da igreja. "Aquela que não pode falar nada porque não é seguro". Como é que deixam você sair sozinho na rua?

- Hein?

- Você é muito burro mesmo.

- Eu não vou ouvir desaforo de um gato.

- Cala tua boca que eu tenha mais experiência de vidas que você. Ouve o que tô te falando. O que é que você veio buscar aqui?

- A...a verdade, eu acho.

- Sobre o quê?

- Sobre o que aconteceu com a Ramona.

- Lindo. Olha, a Ramona não tá mais com você. Faz uns anos já, lembra? E precisou viajar pra outro país pra ouvir de um gato que não tem nada pra você aqui.

- M...

- "Mas", nada. Pensa que eu não sei? Você fala de si mesmo na terceira pessoa e narra as cenas na sua cabeça como se estivesse num filme noir. Toma vergonha nessa cara!

- Eu só queria uma resposta.

- Para de perguntar pros outros. O que você quer fazer? Já parou pra pensar nisso?

- Cara...eu só quero sair dessa confusão.Tô cansado. Muito cansado de não saber o que fazer. 

- Eu sei.

- Eu achava que tinha superado a falta que ela me faz. Quando o casaco apareceu na minha porta....

Subitamente, parei de falar. O gato ficou me encarando com aquela cara de quem sabia que eu tinha percebido uma coisa muito importante. A merda do casaco ficou lá em casa e eu tô aqui, a um buzilhão de quilômetros. Sem a merda do casaco. As palavras saíram sem demora.

- Eu sou um idiota mesmo.

- Ô se é.

Depois de zombar mais uma vez de mim, o gato deu uma última olhada pro meu rosto, virou-se e foi até a janela. Assim que ele saiu, ouvi a porta sendo destrancada. A seguir, ela finalmente se abriu.


(continua no dia 25)