segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Da serenidade e da elegância.

É notável a agitação das águas que se esconde por sobre serenidade superficial de Inquietos (no original, Restless), filme de 2011 de Gus Van Sant que conta a história de Enoch (Henry Hopper), Annabel (Mia Wasikowska) e Hiroshi (Ryo Kase). O primeiro perdeu os pais em um acidente, e desde então é obcecado por pensamentos mórbidos, frequentando funerais de desconhecidos e caminhando por cemitérios. A segunda é a paciente terminal de câncer por quem ele se apaixona. E, o terceiro, o fantasma de um kamikaze japonês que acompanha Enoch como um amigo imaginário desde que este acordou de seu coma após o acidente.

A sensibilidade de Van Sant com o filme e sua história é essencial. Em um dos extras do DVD da obra, é revelado que, durante as filmagens, o diretor estabeleceu uma “brincadeira”: após a filmagem de cada cena, esta seria repetida, com as câmeras ligadas, mas com os atores tendo que se comportar como se estivessem atuando em um filme mudo. Há algumas capturas preciosas desse silêncio, expressões dos atores que talvez passassem despercebidas sem essa estrategia. Há uma infiltração maior das tais águas turbulentas, e da tal inquietude, que percorre cada um dos três protagonistas, por baixo de suas diferentes formas de aparentar invulnerabilidade.

Restless seria um filme deselegante se fosse completamente frio, um filme raso se capturasse só o adorável otimismo de Annabel e o doce distanciamento de Enoch, e um filme sufocante se tratasse à flor da pele todas as emoções que encerra. É essa fraqueza dos olhos, das mínimas expressões que Van Sant captura brilhantemente de seus incríveis atores, que faz o filme escapar dessas três armadilhas para se tornar uma das mais tocantes, elegantemente discretas e realistas produções dos últimos tempos.