sábado, 25 de agosto de 2012

O homem e a cidade

Disse que daquela água jamais beberia. Mal sabia que justamente aquele poço mataria sua sede da aridez da vida. Entre o sim e o não, ele resolveu a ousadia.
 
A cidade o engolia pouco a pouco com o tédio. As pessoas sufocavam seu espírito já cansado de tantas andanças e infortúnios vários. Dançava conforme a música, e caía segundo a coreografia. Quanto mais se anda, mais se chega a lugar algum, embora mais próximo do que se é, havia lido algo parecido no livro que habitava sua cabeceira. Morava em um sobrado em rua antiga. O encanamento atravessava os paralelepípedos. Já mandaram arrumar, diziam os vizinhos envergonhados diante das visitas. Talvez dependesse mais daquele lugar do que havia imaginado. O desdém convinha para esquivar a intensa dependência de cada detalhe mínino daquela cidade, como a luz do poste que falha sempre que alguém passa e o alguém sempre pensa que é questão de energia espiritual, assombração. Ou então dos loucos que gritavam canções e faziam das praças um teatro ao ar livre. O bom dia das simpáticas mulheres que trabalhavam na padaria ao lado do seu trabalho. Aliás, elas pareciam ser o único vestigio da boa educação naquela cidade. Ele mesmo era grosso com os fregueses da gráfica em que trabalhava.
 
A ousadia nos embosca nas escruzilhadas. Quando se chega assim, é preciso estabelecer o acordo. Toda magia tem seu preço, lembrava do personagem de sua série preferida. Chamem do que quiser. Ele mesmo descordaria do termo que empreguei à sua escolha.
 
- Uma passagem.
- Para onde, senhor?
- Para o primeiro ônibus que sair.
 
"... porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos". (Italo Calvino, As cidades invisíveis, página 28)
 
 
E assim ele seguiu viagem para descobrir.