segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Lá vem

a sessão historinha, preguiça, saudosismo, chororo e banana.
gostaria de postar fotos, mas não tenho. infância pobre pobre, pobrezinha.
sem chance de ter fotografado todos os instantes, para não dizer, nenhuma, tenho três, gastas demais pelo tempo, pouco se vê, além dos matos, de fundo árvore, céu cinza, vestimenta, vestido azul e branco cheio de babados e laços, bolsa de palha de ladinho,sapato azul com meias brancas até o joelho e a cara de brava, de tão, diria ser filha do lampião. acho que naquele dia não tinha brincado, por isso, a cara de injuriada.

bonecas de sabugo, pano, costuradas pela vó mazé, algumas de plástico, aquelas bem pequenas, na falta de mais, era brincar nos matos, quintal. até a casca da banana (aquelas tirinhas, retiradas do pé) virava sofá, cama, cadeira, dependendo do tamanho, servia de móveis para boneca que não tinha, exercício para imaginação. mas como em toda família, sempre tem aquele parente de condição boa, eu tinha, a prima cleo, ela tinha muitos brinquedos. brincávamos o dia inteiro, mais correndo feito cabrito como dizia as tias, no pomar, nas bananeiras, subindo, caindo descendo as pressas por causa dos gritos, os berros da mainha: sai daí meninas! não sei, certos detalhes, era muito pequena, mas lembro do calor do cão, de um fósforo na mão e fogo para fazer comidinha. quando vimos, era fogo pra todo lado, canto, se alastrou, queimando o pomar, as bananas, a gente apavorada, imóvel, feito estátua, mexendo-se e força nas canelas, quando ouvimos: "fogo, corre maria tá pegando fogo!"

corremos mais que cabrito e cavalo dando a volta na casa, indo pra varanda, tadinhas achando que ninguém ia desconfiar de nada, ouvimos: "minha nossa senhora, avia com isso homi, corre com o balde, como foi pegar fogo! mais mulézinha, como foi acontecer isso, meu pai do céu!" era o falatório e corrida da mãe, pai, padrinho, madrinha, tios, trabalhadores da fazenda, todos correndo, tentando apagar as chamas, subindo  tomava conta, queimando tudo. quando cessou finalmente conseguindo apagar o fogo, nos viram na sala, vários fios de cabelo pra cima, rosto cinza e cheiro de queimado. pensa em duas meninas que foram dormir quente, mesmo dizendo: "mais mãe não foi a gente não!"  dias e dias sem brincar, de castigo, por causa de um foguinho no bananal. quando nos viam juntas era: "valeimi minha nossa senhora, estas duas não podem  ficar juntas não, são danadas demais rapaiz"

em ferraz de vasconcelos, não era diferente, mato, cachorros, gatos, bodes, cabritos, cavalos, e muito lugar para brincar sem brinquedos. lembro da vez que o pai e mãe foram a festa da escola, e participaram do bingo ganhamos um par de corujas, horríveis, bichinhas feias que dói. castigo perdi a conta, desobediente, não esperava o menino que me levava à escola de jeito nenhum, era maior e nunca conversava comigo, até o dia que descobriram, o dono da chácara me viu na estrada voltando sozinha da escola. imagina, alguém que dormiu quente, imagina o sermão da montanha.

da pergunta que fez minha mãe chorar, "mãe por quê todo mundo leva lanche e eu não? engolindo seco, voz embargada: "leva? o que levam de lanche? "leva, maça, danone, bolacha, banana..." chorou de soluçar. fiquei desesperada de vê-la daquele jeito, disse: "mãe não chora,  eu não ligo não"  mas ela não parava, tempos depois, era 4 dias na semana sem vê-la, estava faxinando fora, para além da chácara, nunca mais, em toda vida perguntei nada, do por quê não tinha isso ou aquilo. ela conta, quando as faxinas ficaram escassas, a necessidade bateu a porta a ponto de comer arroz e alface, me questionou por quê nunca perguntei nada, disse que não lembrava, mentira, eu lembro, banana era luxo.

nesta época pediu a deus, um lugar onde tivesse tudo em abundância, principalmente leite, pois vivíamos doentes, mas era de desnutrição. pediu e deus atendeu, mas deste lugar já contei algumas brincadeiras, da primeira boneca, primeira barbie, ganhada do dono da fazenda. e foi.

da terra para o mar, do mar para cá,  diadema e mil e uma tantas brincadeiras, ruera, ser menina-moleque, carrinho de rolimã, pipa, roubar bandeira, pega-pega, vôlei, futebol, taco, esconde-esconde nos bueiros, até a madrugada, em frente de casa (ali onde hoje é um terminal, no eldorado, era esgoto a céu aberto, cheio de  tubos, ótimos pra se esconder, ninguém encontrava e você nunca batia cara), correr pra bater nos meninos que batiam no meu irmão, apanhar e bater indo dormir quente pois sempre aumentavam dizendo que eu era encrenqueira, imagina, justo eu?

da feira: "olha tá acabando, é só levar minha senhora, a dúzia tá baratin, banana prata, da terra, nanica tem a que você quiser, vamu aproveitar e o olha a banana", tinha um cara que falava tão rápido que mal entendia qual era a fruta.horário sempre próximo ao meio dia, mais barato. do dia que deixei a melancia, as laranjas, rolarem a rua inteira até chegar avenida enquanto minha mãe chorava de rir, por causa do desespero: "lá se foi as frutas da semana". mas adivinha o quê estava no chão amassada, mas comível? as bananas, salvou a feira da semana.

neste tempo ainda brincava de boneca, tinha o bebê da estrela e barbie caolha, tintura gasta pelo tempo.brincava escondida e já tinha beijado o menino mais bonito da rua, chamado toco, galinha que só. tava virando mocinha. e sentia de crescer, mesmo na infância sem regalias, excessos, sem o básico, mas no pouco que era muito, trazido com muito esforço pela mãe que não via, sempre trabalhando, era muito valorizado.a parte chata era crescer, sabendo disso agora, antes queria crescer, trabalhar, olha que boba meu!

não tive brinquedos, nada do que as crianças de hoje tem. mas as crianças de hoje, são de outro tempo, moderno. são tremendamente espertas, inteligentes, danadas, independentes, ativas, algumas mais do que outras, correndo o risco de ter a melhor fase, parte da vida roubada. na televisão, na cena, na propaganda que exige atenção, consumindo-os pelos olhos. e não vejo crianças, vejo semi-adultos e lapso.

semi-adultos crianças que tem acesso, de toda natureza, informática, brinquedos, estudo, viagens, tem de tudo a toda hora, menos infância.não sabem brincar, não sabem se divertir, como criança. outra noite, no altas horas a constatação, uma criança-adulta, relatando a carreira, cenas, cotidiano, sendo entrevistada por crianças do mesmo tipo, adultas.ser criança neste tempo é isto, consumo.

ou ser menina fantástica: "olha que magra! olha como anda! olha o olhar, olha! o andar angelical, de menina, olha que sexy! olha o contraste dos olhos com a pele! olha o cabelo, OLHA QUE MAGREZA! olha esta nunca pisou na passarela" mas quando entrevistadas: "olha quero que vocês me digam o nome do presidente, o número de vereadores da câmara,  ops, é brincadeira, queremos saber da sua história" meninas pobres que almejam corpos ideias, padrões de beleza a ponto de coisificar a mulher no consumo, etiqueta, classe social, posições e destaque na mídia, que jamais alcançarão, apenas uma entre um milhão. e desde quando menina tem que ser sexy e não ser inteligente? aliás desde quando a menina tem que ser sexy meu deus? ou ser apenas modelo? ME POUPE REDE GROBU DE TELEVISÃO, elas podem ser qualquer coisa, menos inteligentes não é? caso contrário mandarão o padrão e canal de televisão para sabe onde sem o quê. reafirmando-se como lixo da comunicação.

o lapso, são crianças sem acesso, inclusive a frutas, alimentação de qualidade e todo e qualquer direito defendido pelo ECA, tornando-se semi-adultos, no tráfico, no crime, no comércio, nas fábricas, na exploração de todo âmbito. principalmente norte/nordeste (vale do açu ). recentemente encontrei artigo da usp, denunciando a exploração infantil na bananicultura por empresas estrangeiras. vai além, sendo explorados na pobreza e falta de, pelos indicadores de audiência. a desgraça, a pobreza gera lucros.

da infância a fase adulta, as bananas, bananicultura.
mas não incendiando-as, não questionando a falta na mesa, não na derrubada na ladeira, deixando-as amassadas ou no ouvir: olha a banana, olha a banana, vai levar moça? onde moro sequer tem feira no fim de semana, tem o mercadão, absurdamente caro. atualmente como parte do objeto de estudo, a exploração, no bananal. o pensar, a desistência, por artimanhas eleitoreira do psdb. pois é, o psdb atravessando, atrapalhando meu caminho, vida. não consegui no vale do ribeira para agora, será pesquisa futura, com direito a melhorar o argumento, entrevistas.

sabe quando a gente fica com aquela cara, de quando não sabemos do quê "brincar"?
logo eu, que tanto brinquei nesta vida, infância.
ou cara de "não foi eu mãe, juro" com bico enorme, cara de nada e chateada.
agora é brincar de outra brincadeira séria...

é a vida, é bonita, é bonita.

por falar em brincar, desculpe é mais forte do que euzinha:

OLHA a BANANA! 
OLHA a BANANA, tá fresquinha, levanta a mãozinha, soltando a língua, cruza um dos braços e BANANA para o PSDB.

SERRA, NÃO BRINQUE DE SER CANDIDATO, 
conselho, aposente-se e garanta outro brinquedo, outra brincadeira,
nesta cadeira você não senta!
OLHA A BANANA!


 PSDB precisa voltar a ter uma atitude muito mais próxima do que o povo está sentindo" 
(Fernando Henrique Cardosoaqui
aahahahahahhahahahahhahahah, oi? faz me rir, olha a banana, tá fresquinha, banana pra vocês!