quarta-feira, 27 de março de 2013

Gregor Samsa na cozinha

Fui tomar um copo d´água e me deparei com um Gregor Samsa no chão da cozinha. O bichinho monstruoso estava ali movimentando ligeiramente as inúmeras patinhas e as antenas longas como que conhecendo o ambiente. Levei um susto e imediatamente saí do meu estado sonolento porque não é comum aparecer tal ser por aqui – a não ser no livro do Franz Kafka. De onde será que ele saiu? Quais os caminhos que percorreu? Será que transitou pela minha xícara? Não quis nem imaginar. Conferi se a minha amiga que mora comigo estava realmente dormindo em seu quarto, afinal, depois de ler “A metamorfose” nunca se sabe, não é? Ufa! Ela estava lá em seu sono tranquilo. Então, tratei de pegar a vassoura para me livrar do intruso. Depois de persegui-lo pela cozinha e dar muitas vassouradas, consegui apenas atingi-lo de leve na parte posterior, quebrando algumas patinhas e imobilizando-o. Fui dar os golpes fatais, mas me dei conta que era madrugada e a vizinha de baixo não iria gostar nadinha da barulheira que eu estava fazendo. Não posso esmagá-lo com o chinelo, pois definitivamente eu não suporto o barulho do clac seguido da gosma branca, não adianta, eu não consigo. Fui até a área de serviço, não encontrei veneno, mas avistei o recipiente de água sanitária. Experiência química, por que não? Despejei um pouco sobre o inseto asqueroso imaginando que seria uma intoxicação total. Enganei-me. Mesmo sem as patinhas de trás ele fugiu velozmente da poça, indo parar mais adiante, cansado. Vi o vinagre na prateleira de temperos. Vinagre é ácido! Mais uma vez despejei a substância sobre o bichinho e ao contrário do que eu imaginei, ele se deleitou no líquido, afogando-se, embriagando-se, perdendo sua potência vital aos poucos. Olhei para ele por alguns instantes e de repente estava me sentindo como a personagem do livro “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector. G.H. também massacra um ser asqueroso assim e em seguida começa com seus existencialismos. Antes que eu me entregasse completamente aos meus existencialismos, lembrei-me daquela cena reveladora em que a personagem come o isento. Argh! O que a literatura faz! Fiquei observando o fim daquele sujeito – porque naquela altura ele já era um sujeito – virado com as patinhas que sobraram para cima. As antenas ainda se mexiam lentamente até que senti que acabara. Peguei a pá, a vassoura e segui para a lixeira. Ao colocá-lo na cova vi que ainda estava vivo! Senti o paradoxo de ser por um lado, a torturadora, e por outro, a torturada por aquela sobrevivência que estava me cansando. Completamente desiludida, peguei uma colher de sal e despejei sobre ele. Admito: minhas técnicas de tortura são as piores. O bicho ainda gozou o sabor da substância, lambia as patinhas. Sou uma covarde mesmo, por que não deixei o bicho horroroso vivo? Ou então, por que não o matei de uma vez? Optei pela forma mais dolorosa – e mais culinária – possível e o inseto ficou ali por minutos na sua morte lenta e saborosa. Enfim, morreu. Altas horas da madrugada, o meu sono morreu faz tempo. Tudo por causa de um ser resistente, tudo por causa de Kafka e de Lispector! Acho mesmo que só as baratas sobreviverão ao absurdo do mundo. Vou dormir as poucas horas que me restam e espero que pela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, não dê por mim na cama transformada num gigantesco inseto.